Estive lá e foi um suplício. Passei horas a fazer ar de antipática, não fosse algum infeliz tentar dançar comigo. Nunca voltar a casa teve tanto sabor a resgate.
"Hoje os meus olhos começaram a arder de um momento para o outro e deixei de ver durante largos minutos. Estava na estação de Campanhã, no Porto, e senti-me imediatamente perdido. Um homem deu-me o braço para me conduzir até à farmácia mais próxima, não muito longe dali mas difícil de atingir quando não se vê nada.A sensação de desconforto e desamparo é enorme quando as coisas surgem assim sem aviso, mas bastou-me ouvir uma voz com disponibilidade para me ajudar que me senti logo mais calmo. Acho que há qualquer coisa disto no amor entre duas pessoas. Tentamos ter alguém para não nos sentirmos assim perdidos. O amor não é inútil."
Ao estilo do Bagaço:
Ela: Estou contente que tenhas decidido fazer as obras. Valeu bem a pena termos gasto nisto as nossas férias.
Ele: É verdade. Sem ti teria desistido de aplicar o chão flutuante. És boa nisto.
Ela: Obrigada. (...) Quero pintar um quarto lá em casa. Acompanhas-me?
Ele: Sim...
No dia das pinturas em casa dela:
Ele: Se querias que eu pintasse porque é que estás com o rolo na mão?
Ela: Porque quero que façamos isto os dois.
Ele: Mas se sabes fazer, não estou aqui a fazer nada.
Ela: Estás. Estamos a fazer isto juntos.
Ele: Só vim porque pensei que não eras capaz de pintar, mas afinal é pior - consegues, mas o que não queres é estar sozinha. Pensei que eras autónoma mas enganei-me, és igual às outras.
O Ela fui eu. Ceguei naquele momento, nunca mais o vi com os mesmos olhos - os meus.
Poucos de nós resistem a esticá-la de vez em quando.
Faço-o com alguma frequência, em particular com o trabalho, com aquele que custa a sair das mãos por estar a ser difícil. Deposito uma certa confiança na inspiração de última hora, crente que tudo acabará bem graças à adrenalina que põe o cérebro a trabalhar melhor (ou simplesmente a trabalhar).
Sei que há uma boa dose de sorte envolvida nos desfechos felizes e que nem sempre será assim. Um destes dias vou fazer figura de urso. Eu, que normalmente apareço com ar de quem fez o tpc a tempo e horas...
Em pára-arranca desde Campolide, há quem desespere antes de deixar a cidade para trás. Importo-me pouco com isso e entretenho-me a ver os rostos, quase todos tensos, dos outros condutores. Como o meu, às tantas... Mal dou pelo caminho enquanto não chego ao tabuleiro da ponte.
É ver o rio e o sol a descer no mar que quero. Ver chegar a noite, de que só gosto desde que me mudei para esta casa no alto da colina. Aqui, de onde passei a ver o rio e as luzes de Lisboa. Onde desfiei madrugadas de lua gorda fazendo as águas da baía brilhar como prata, até que no céu ficavam só ela e Vénus, e depois se iam, juntas, com a chegada do sol. E Lisboa ao longe, sobre as águas. É por saber que é esta a visão que me aguarda, que me tranquiliza ver o sol descer no mar. Por isto e por saber que nasce para outros e lhes leva luz e calor. Como fez comigo hoje e voltará a fazer amanhã. Há certeza mais apaziguadora do que esta?
É vaidosa. Tanto que se torna excessivamente prestável e solícita sorrindo à sobrecarga desde que os outros a reconheçam como carregando o mundo às costas. A vaidade sedenta tem destas coisas, de se confundir com bondade...
E a mim nada disto teria incomodado, não fosse ter colidido com a minha própria vaidade. Resta-me alegrar-me por me ter contido deixando-me ficar calada. A astúcia não permite a língua demasiado solta e eu ambiciono a primeira... Preferi não abrir a boca por causa da tal coisa, de por lá morrer o peixe. É que eu, talvez mais vaidosa ainda, quero a vaidade de já não ter vaidades mas apenas rir-me delas.
Talvez um dia melhore a sério. Para já, apetece-me apenas refinar-me...
Sempre que rodo sobre eles são 180º. Meias voltas a que, depois, vou somando múltiplos de 360º, revisitando de relance o que ficou para trás. Não me serve. Deveria ser 180º. Ou nada. 180º+k360º é que não. Definitivamente.
De Paris chegou, depois dela, um postal que dizia "(...) Eu estou óptima e a adorar esta viagem. Para além de ver coisas lindíssimas estou a aprender imenso no que toca a governar-me sozinha, a fazer opções e a ser mais sociável, para não falar das línguas que já falei, 4. Muito obrigada por me proporcionares esta viagem, acho que não poderia ter escolhido melhor. (...)". Era isto ou La Manga, ou Loret, sete dias gastos em noitadas e excessos, entalados entre viagens infindáveis de autocarro. Abençoada hora em que, sentindo-a perante a dúvida e pressionada por amigos divididos entre os dois destinos, lhe atirei "E Paris?".
Só depois de tê-la de volta é que me concedi que me batesse fundo que a miúda nem 17 anos e meio tem ainda. Mas se se espera que nesta idade se seja capaz de escolher o que se vai fazer da vida, é também, penso, a idade certa de cada um deles perceber do que é capaz de fazer por si mesmo. O terceiro período está à porta, em Junho há exames e ela aposta alto. Nada melhor do que saber-se capaz para enfrentar cheia de garra o que a espera. Meilleurs voeux, ma chérie!
Quando a primavera chegou, o sol e o calor já tinham aberto os sorrisos, o meu também. Mas só por fora. Por dentro há semanas que procuro a quietude, que preciso de tempo para pensar e para sentir. Alguém em quem confiava falhou-me. Ou desencontrámo-nos. Ou evoluímos em sentidos que dificilmente nos juntarão novamente à mesa, frente a frente, que é o melhor sítio para se estar com os amigos. Porque se encontram os olhos sem que um tenha de olhar de baixo e outro de cima.
Preciso de sossego para aceitar as diferenças, guardar as memórias boas e seguir.
aDeus. Que te acompanhe e te faça melhor.
E a mim também.
Por falha, neste caso, entenda-se contar mentiras. Que é diferente de responder com mentiras a perguntas indiscretas - isso pode ser uma questão de falta de coragem ou de assertividade. Daí a minha dificuldade em entender. Em entender a escolha por esta via, a da mentira gratuita. É que gosto tanto da minha cabeça erguida, do direito a contar da minha vida apenas aquilo que quero e dizer, com um sorriso, a isso não te respondo quando sinto pisada a linha que demarca a minha privacidade... Há gente que não quer crescer. Resta-me respeitar e conceder-me o direito de não querer tais companhias. Por respeito a mim mesma - a primeira pessoa a quem devo honestidade.
Troquei as voltas ao planeado (que era trabalho) e em menos de nada estávamos a caminho de Palmela ao encontro do pessoal do CMA para uma experiência no rappel e no slide. Eu e a pequena mais pequena, a mais alta de nós três e que promete continuar a crescer. Mão na mão, rolando calmamente pela A2, depois do TomTom ter desistido de nos dar indicações (então e não é que tentou fazer-me chegar à auto-estrada pelo caminho mais longo e pateta?)
Passámos a manhã entre subidas, descidas e voltas ao castelo a respirar a vista deslumbrante como quase só dos castelos se consegue ter.
Lanchámos morangos e fizémos planos para mais dias assim. Trabalho demais, elas estudam demasiadas horas, sinto que nos sobra pouco tempo para viver...
No regresso a casa, com o TomTom amordaçado, preferimos escutar a Marginal. Nem de propósito,
The greatest thing you'll ever learn is to love and be loved in return...
Cantou-a e adormeceu.
A máquina fotográfica foi comigo. Baterias carregadas, é que nem por isso. :o(
Ainda cedo lancei-me às tais fatias finas quando o que me apetecia, mesmo, era estar lá fora a sentir o ar fresco da manhã tornar-se morno. Sentir o sabor a verão que chega sempre no mês de Março e nos consola antes do frio que ainda virá em Abril e Maio. Tento ver isto como um mil folhas mas não está fácil, até porque nunca gostei desse bolo, mas desistir ou adiar estão absolutamente fora de questão. Vim aqui só para desabafar um bocadinho, escrever é bom seja qual for o estado de espírito. Dois capítulos a cada três semanas, no final de Maio terei a primeira versão do livro. A meta é esta e em fatias finas lá chegarei. Quem sabe se hoje não me darei como prémio ir ver o sol cair no mar? Já arregacei as mangas. Fui.
Sabe-me bem ouvir a Rádio Marginal no regresso a casa, particularmente se o dia de trabalho foi longo. E são quase sempre tão longos... As aulas do segundo ciclo funcionam em horário pós-laboral, de forma que neste semestre o meu serviço é todo fora de horas. Seria mais fácil se eu não me levantasse com o sol ou antes dele. Acho. Regresso a casa calmamente, vendo as luzes de Lisboa a ficarem mais pequenas no retrovisor. É difícil desligar-me da lista de tarefas que ficou em cima da mesa e dos compromissos que enchem o meu Google calendar. Revejo mentalmente as prioridades para o dia seguinte e faço o balanço do dia. Sinto-me bem, cheia de projectos. A sabática cada vez mais próxima, umas ideias novas que passei para o papel, a vontade de transformar em livro as centenas de horas dedicadas a preparar aulas... e eis que o Barry White começa a cantar. Volto à Terra por instantes para logo de seguida levantar voo com ele. Sigo-lhe as palavras, canto, com ele mas não como ele. Não o acompanho na voz, claro, tampouco no propósito. Os tempos são de crise, crise humana, um certo tipo de pobreza que nos assola por dentro. Canto-a para mim, pensei, à falta de a quem a dedicar para, mais lúcida, concluir de seguida que é a escolha certa. Cantar esta canção vale pelo exercício, a fazer e repetir, por e para cada um de nós, que somos first, last e, sobretudo, everything para nós mesmos. O resto vem por acréscimo e para durar não se sabe quanto. Certa, só a nossa própria companhia. Pois que seja, então, a nossa preferida.
My first, my last, my everything
My first, my last, my everything You're the answer to all my dreams You're my sun, my moon, my guiding star My kind of wonderful, that's what you are I know there's only, only one like you There's no way they could have made two You're all I'm living for Your love I'll keep for evermore You're the first, you're the last, my everything And with you I've found so many things A love so new only you, only you could bring Can't you see it's you You make me feel this way You're like a fresh morning dew on a brand new day I see so many ways that I I will love you until, until the day I die You're all I'm living for You're my reality, yet I'm lost in a dream You're the first, the last, my everything I know there's only, only one like you There's no way they could have made two You're my reality But I'm lost in a dream You're the first, you're the last, my everything
Não tinha conseguido sentir verdadeiramente, até há bem pouco tempo, o quanto é verdade que certas perdas, portas que se fecham contra a nossa vontade, são, na verdade, oportunidades de crescimento no sentido de nos tornarmos quem queremos ser.
Aprendi definitivamente que não vale a pena ficar em frente a uma porta fechada à espera que ela volte a abrir-se para nós. Antes, é de aproveitar o alívio da carga das obrigações e dos compromissos para nos ocuparmos do que realmente nos interessa e faz bem.
Estou a gostar de 2009. Muito. Em particular do que tenho feito por mim. E do que vou continuar a fazer.
Em (r)evolução.
Fascina-me o génio do género humano.
A curiosidade genuína pelos comportamentos, a causa das coisas, o como fazer e o como funciona move-me.
Gosto de ar livre, de natureza e de desporto.
Gosto de olhar nos olhos e de escrever - coisas que me fazem bem.