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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Nem tanto ao cão, nem tanto ao gato

Dei com isto partilhado por um amigo no facebook e foi como que uma espécie de bofetada. É que sou do tipo cão quando toca a arregaçar mangas e meter a mão na massa. Faço, faço com dedicação canina e muitas vezes não tenho patas, quero dizer mãos, a medir. Tudo com sorriso nos lábios e genuína boa vontade. Pior mesmo, é depois constatar que o gourmet creamed salmon é a gata que o leva.
Mais uma coisa para resolver cá tra me e me. É que não quero mudar. Quero é deixar me importar com a gataria.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

É contigo

Sim, contigo. Não contigo sendo tu o outro, mas contigo mesmo. É a ti que compete ser, para ti mesmo, toda esta alegria, esta vontade de sorrir, esta força. Senão não serás mais do que um fardo nos ombros de alguém. De alguém que, mesmo que agora veja peixes verdes nos teus olhos, cederá ao cansaço de te fazer feliz.
O recado é só um: Basta-te.

[É que o bolo de que se gosta não é aquele que precisa que lá coloquemos a cereja. É aquele que já a traz. If you know what I mean.]

segunda-feira, 23 de maio de 2011

P'ra escrever 500 vezes...



... até que aprenda, e aprenda a calar-me. Calar-me num silêncio que não seja mordaça, mas paz. Por não ser preciso lembrar, nem bradar ao vento. Por ser sabido, respirado e vivido sem margem para dúvidas.

"A admiração exalta, o amor é mudo"
[diz, tão bem, o povo]

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Isto...

... e o sentimento de redenção que nos [me] chega pelo trabalho. O braçal, sobretudo. Ao serviço de outrem, por um bem que não é directamente o nosso. Sem fazer alarde [a não ser cá dentro].

A simplicidade é a coisa mais complexa que existe. Porque exige que se conheça a complicação para se saber que é desnecessária; que se chegue ao excesso para saber reconhecê-lo; que sejamos egoístas até percebermos que nos isola; que acumulemos até nos sentirmos sufocados. Um dia acordamos e decidimos que muito do que temos feito está errado e que é tempo de mudar. Livramo-nos de um bocado de cada uma destas coisas e achamos que vamos no bom caminho. Mentira. Apenas arranjámos mais espaço, mais espaço para coisas novas.
É preciso fazer muito mais. Cá dentro. É preciso aprender a paciência e o valor do tempo; que o valor real de cada objecto, ao contrário do que tantas vezes pensamos, é inversamente proporcional ao seu preço, porque o que pagamos é o cativeiro.
De todos, os exercícios mais difíceis são o da dádiva e o da gratidão. O primeiro, porque só começa verdadeiramente quando dói e não quando se dá aquilo de que se não precisa, e o segundo porque exige que o centro do mundo se desvie do nosso umbigo.

[por cá estamos com dificuldades; todos sabemos como é difícil alterar o eixo de rotação dum planeta, não é?]


domingo, 16 de janeiro de 2011

Trop

Desceu a noite. Cedo demais.
Vida tão breve teve o sol, que levou dois dias a romper o nevoeiro. Mas esteve único, belíssimo, no céu da tarde. Por tão pouco tempo... Eu a querer que ficasse mais um pouco e ele a descer sob os meus olhos.
Lembrei-me duma canção que diz que todas as histórias de amor terminam demasiado cedo ou demasiado tarde. Aquela, a que diz les histoires d'amour finissent toujours trop tôt ou trop tard, que de vez em quando oiço mas que nunca encontrei.

[talvez não precise de saber mais do que isto, mesmo]

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Quem quer...

... arranja um meio.
Sei que me repito, mas é assim mesmo. E quando começa a parecer que não quer é, em geral, porque não quer e só não encontrou forma de dizê-lo. Ou não. Por via das dúvidas, dê-se tempo e espaço. Algum, não muito. Porque quem quer arranja um meio. Sempre. E não perde tempo a arranjar desculpas.

domingo, 7 de novembro de 2010

All ways

I love you now.
Amar aos bocados é o que está na nossa natureza. Amar o fácil, o simples e o que nos agrada. Amar quem nos ama e nos mima, quem nos mostra que tem de nós um conceito e uma imagem que ultrapassam o conceito e a imagem que temos de nós mesmos. É nesse sentido, dando esse significado à palavra amar, que todos nós amamos muito, temos amado e amaremos. Muito. Toda a vida. E é fácil, tão fácil.
I love you always.
Difícil, muito mais difícil, é amar sempre. Amar também quando é tempo de dar muito mais do que se recebe, de ser paciente e querer o bem. Amar também na falta e na fraqueza do outro, perceber-lhe as diferentes formas e aceitá-las como um todo. Ser capaz de, mais do que dizer, sentir verdadeiramente que se ama. Sempre. Independentemente da facilidade, não condicionalmente à forma, mas em todas as formas. I love you all ways.

Mesmo nos dias de alma rasa, aqueles em que temos o coração embalado a vácuo como um naco de picanha sul americana. If you know what I mean...

sábado, 6 de novembro de 2010

Se são? Não.

Não, não são. A maioria das coisas não são como nós queremos. Porque pura e simplesmente queremos demais, queremos naquele momento e naquela medida. E não há quem aguente ou, mesmo que aguentasse, não há quem adivinhe. A solução passa por querer menos. Simplesmente.

Acredito que aí começam as surpresas boas. Genuinamente. E em vez de amuos nascem sorrisos.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

C'est comme il faut...


... mon Petit Gateau!

Um interior doce e derretido qb, numa estrutura sólida mas não rígida.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Pride, Prejudice and Prejuízo



A versão que eu queria, mesmo, era a original da BBC, com narradora for the blind e subtitles fiéis ao discurso for the earing impaired. É perfeito, satisfazem-se os sentidos e a imaginação. É como ter a Jane Austen ali ao lado. Digo eu, que gosto que me contem estórias...

É de mim querer nalgumas coisas, não tantas assim, só naquelas de que gosto mesmo, que sejam o melhor possível. E mais do que nas coisas, é o que quero na relação com aqueles de quem gosto e com quem estou só porque sim, porque gosto. Menos simples é, porém, esse gostar, esse só porque sim. Assenta no puro prazer da companhia, na alimentação dos sentidos, na conversa inteligente, no saber de tudo e de nada, no humor apurado sobre si mesmo antes, muito antes, da maledicência, no respeito pela natureza, por si e pelo outro, uma curiosidade infantil e uma vontade infinita de aprender. Assenta em ter paladar apurado, nariz para os aromas e no espírito taninos, porque também há conversas graves, mas sem excesso que traga adstringência. Tudo num carácter sólido. Menos do que isto é pouco. É muito pouco. Paciência.

Instalou-se alguma inquietação quando, ao me dizeres tratas-me bem te respondi que dificilmente me conhecerias outro modo de tratar-te, que passaríamos disso ao nada, assim, simplesmente, do bom trato ao nada, um dia. Assim? espantaste-te. E eu, sim, assim. No dia em que me desencantar, ou perceber que te desencantaste tu e logo por isso eu também, deixarás de me ver e eu a ti. Assim. Só não te riste porque percebeste que falei a sério mas sorriste apreensivo. Acudi-te, mais a mim que a ti na verdade, com um não te verei até que te recupere e nesse dia procurar-te-ei.
Era assim que gostava que fosse. Isso ou não ter esta coisa tão entranhada, que é rodar sobre os calcanhares. Queria perceber, aprender, na verdade, como é que se luta contra uma perda iminente, coisa de que fiz na vida apenas uma tentativa desastrosa. A minha especialidade são as voltas de 180 graus, mesmo, zapt! Sobre os calcanhares.

Amanhã vou voltar a sentar-me no sofá e respirar Mr. Darcy, para quem My good opinion once lost, is lost forever. Mas porque para sempre significa até ao infinito e tem carácter definitivo, crente como sou na mudança, não posso dizer o mesmo mas apenas que My good opinion once lost, is lost. Forever almost surely ou talvez até não.
Com todo o prejuízo que isso possa trazer.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Second best(a)


Digo tantas vezes que P'ra melhor está bem, está bem, p'ra pior já basta assim. Porque não haveria de dizê-lo, sentindo-o, se é assim que diz o povo, que é sábio? Dá-me tranquilidade e aconchego teimar nisto, na sabedoria do povo...
De facto, quem tem ou teve algo de um certo nível, seja ele qual for, não quer mudar para pior. Custa. Importam pouco aqui as medidas absolutas porque tudo é, afinal de contas, relativo. São-no o bom e o mau também, não se duvide disso. E fazer comparações é coisa que a espécie humana faz com refinada e (in)conveniente mestria. A nossa memória é muito melhor do que julgamos e sabe, no momento preciso, arrancar a crosta e esfregar, bem esfregado, o sal na ferida. E o momento certo é precisamente aquele em que nos deparamos com algo semelhante ou pior do que algo mau que já conhecemos, algures, no passado. Nessas ocasiões, tocam em nós todas as sirenes de alarme que deverão fazer com que sejamos capazes de evitar a repetição do desastre. Diz-se que isto é bom e até tem nome: é ter aprendido a lição. Uma lição dolorosa.
O que a nossa memória não faz tão bem, se é que o faz de todo, é, no momento em que acontece algo banal ou particularmente bom, procurar nas nossas memórias, uma situação semelhante mas com um desfecho pior e tratar de valorizar a ocorrência presente. Ou seja, raramente aprendemos uma lição quando acontece algo bom. Uma lição doce.
Neste pé, quando pensamos e afirmamos estarmos a tornar-nos exigentes à medida que o tempo passa e nos tornamos vividos, estamos, em geral, a pensar na vasta colecção de lições dolorosas que aprendemos e que usaremos em nossa defesa. Mas se assim for, não estaremos, senão, a tornar-nos intolerantes e injustos. Se não aprendermos a coleccionar lições doces e a servirmo-nos delas também para avaliarmos o presente, pessoas e situações novas não conseguirão ir além de second best (ou besta) e não serão, portanto, elegíveis para fazerem parte da nossa vida. Porque só p'ra melhor é que está bem, está bem...

A fasquia da qualidade é tantas vezes, afinal, um garrote. Disfarçado, a sufocar lentamente.

Digo eu, que passo o tempo a mandar pr'a trás enquanto trauteio o The best is yet to come.
If you know what I mean...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

No te empeñes mas


Não era dia de vir aqui, não tinha havido urgência até há pouco. Daquela boa, da que me faz adiar afazeres domésticos e me leva a sentar-me aqui e dedilhar. Aquela urgência que me faz, cada vez mais, sorrir comigo mesma e ser feliz porque só porque sim. Mas depois apeteceu-me, quando pus a tocar, baixinho, o Nocturnal de Charlie Haden. Quem já tiver ouvido isto cá em casa com luz suave, recostado no sofá, vendo as luzes da cidade e, noite alta a lua, brilhando sobre o rio, sabe que esta é a música perfeita para fazer as pazes com o mundo inteiro e ter a certeza que a riqueza maior da vida são o presente e a surpresa do que está para vir.
Veio isto a propósito da música escolhida, No te empeñes mas, que, ao contrário do que possa parecer, não quer dizer Desiste. Ao invés, é um convite à calma, ao respirar fundo, ao perspectivar e à reflexão. Convém que saibamos o que andamos a fazer e em que temos empregue a nossa energia. Sem descartar aquelas que são obrigações fundamentais, parece-me haver demasiada dedicação ao supérfulo que, sendo atraente à primeira vista, nos mantém reféns depois.
Nunca como agora me apeteceu tanto no me empeñar mas por tudo o que, realmente, não me faz melhor nem mais feliz.

Pois... a foto. Ai a foto...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Vão-se... os dedos


Parece fácil percebermos que aliviarmo-nos de coisas nos liberta. Temos menos do que cuidar, menos a proteger, menos a manter, menos a temer que nos seja tirado. Sobra-nos então mais tempo para vida e para a liberdade. Parece fácil mas não o é para todos, pelo menos não sem uma paulada daquelas que a vida sabe dar tão bem. Parece-me.
Desfiava eu o discurso da tal facilidade, chapa três, frases feitas, quando me doeu a verdade que é o facto de ser tão frequente a falha na avaliação do que é realmente importante. E falha até um dia, que é o dia em se vão as pessoas e ficam as coisas. Todas, metade delas, ou lá que porção for. Uma espécie de vão-se os dedos e ficam os anéis.
Vão-se os dedos que cuidavam, que protegiam, que mantinham.

Há coisa de um mês voltei a usar anéis, entretenho-me a rodá-los, estranho-os. Durante muitos anos tive apenas dedos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

No me lo creo


Porque é que escreves? Como é que fazes? Urgência. Apenas.
Não convenci e por isso, dias depois, lançou-me um Vê se escreves. Prometi que sim, se viesse a urgência. Disse-me que ficaria à espera, uma espera injusta.
Bastaram essas palavras. Acho que muitos anos depois ainda sabe picar-me, como fazia quando se sentava ao meu lado nos primeiros anos da escola secundária. Ou sabe ou foi por acaso, mas resultou.
Não sei que lhe fiz, foi o que pensei de repente. Por isso corri até à cozinha e espreitei a lateral do frigorífico. Lá estava, perto da esquina, pendurada com um íman, a tampa do iogurte. Peguei-lhe para ver a data, expirava a 21 de Outubro. Não tinha o ano mas sei bem que foi em 2006. Qual bolinho da sorte, acreditei e afixei-a para que me iluminasse. Guardei-a em tempos difíceis, em que qualquer tolice me parecia um sinal da proximidade de dias melhores. Dias melhores que não chegaram enquanto esperei daquela espera, da sentada. E esperei muito. O que não percebi na altura, mas que hoje sei bem, é que a espera é como os lacticínios: deve ser consumida num prazo razoavelmente curto. Expirado este, está condenada a azedar.
E foi preciso que azedasse para que eu percebesse que muito melhor do que esperar, é não esperar. Porque só quando não se espera é que existe a surpresa, o encantamento, a maravilha e o que sucede é apreciado e não comparado e rotulado como bom ou mau consoante exceda ou fique aquém do esperado.

Se existe o reverso da medalha? Sim. É que quem não espera, não por não depositar nos outros a responsabilidade daquilo de que precisa mas por se ter tornado impaciente, não se senta, raramente se detém. E deter-se calma e pacientemente é fundamental para maravilhar-se.

Não esperes, portanto. Não esperes nada de mim.

sábado, 7 de novembro de 2009

Esta coisa dos porquês...


Recostaste-te, rodaste o copo, sorriste e atiraste Li e o tema é recorrente, negro, triste. Porque não escreves sobre coisas alegres? A vida é mais divertida do que mostras ali. E porque escreves de forma anónima? Porque é que não está lá o teu nome?

Eu já estava recostada. Imitei-te o rodar do copo, sorri e encaixei. Não sem algum custo, e não sei se consegui disfarçar o incómodo. Uma pergunta assim é como lançar um pedra num lago. Perturba.
Mas o facto de ter vindo de quem brincou connosco há quase 30 anos atrás e quase nada sabe de nós, facilita. É quase académica, coisa de quem estuda os outros. Não é pessoal, não pode ser. A menos que estivesse intrigado por, tal como eu, se ter assumido, por escrito, como interessado no porquê e nas causas das coisas. Ou, desconfio, interessado no porquê e nas causas das coisas em nós mesmos.
A pergunta não me tirou o sono, mas fez-me levantar cedo e tenho andado a pensar no assunto, não gosto de pontas soltas. De acordo, a vida é bem mais divertida, tal como eu sou bem mais divertida do que aquilo que escrevo aqui. Volto atrás e penso no que me levou a querer escrever. Há uma resposta que surge de imediato: necessidade de arrumação interior. Escrevo, na maioria das vezes, sobre o que me incomoda, sobre aquilo que quero compreender e pretendo mudar. Daí a recorrência, é preciso insistir. As melhorias, os avanços, registo-os. São uma espécie de marcos. Recorrentes, também. Com as coisas melhores, mais leves, divertidas, posso muito bem e por isso não preciso de trazê-las aqui.
Este blogue não é o relato dos meus dias. Não é o meu retrato, é apenas uma parte, pequena mas importante. Para mim. Tal como é para mim que escrevo. Até estas ideias um tanto desordenadas, em jeito de resposta, são para mim. São ponto de partida, ponto de reflexão e ponto de chegada. Para entender alguns porquês. E estão aqui penduradas, são públicas, porque isso me faz sentir acompanhada.
Quanto ao anonimato, entendendo-se por anonimato a ausência do meu nome no perfil, que dizer senão que é, talvez, a única coisa em mim que não mudará? Assim sendo, não faz aqui falta. Neste blogue, o assunto é a mudança.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Pés à parede. Doucement.


Hoje não foi, de todo, um dia que devesse passar em branco. Estou contente comigo - aguentei-me na derrapagem, não fui ao chão.
É difícil lidar com a força centrífuga- tira-nos de nós. Pior, esmaga-nos o coração contra as costelas. E isso dói, muito. Mas hoje não. Pus pés à parede, tout doucement. Porque a doçura, principalmente a que experimentamos connosco mesmos, é a que tem mais chance de crescer, transbordar e chegar a tudo o que fazemos. Chamei-me de lado e disse, tra me e me, baixinho, menina, então? recompõe-te! Beijei o braço, cá perto do ombro, como fazia a miúda mais crescida e disse, como ela dizia, gosto muito dos meus bracinhos. De volta, recebi um abraço. Aquele que melhor me faz.

Saber pôr os pés à parede, tout doucement, sem ser a pontapé nem fazer alarde, é um exercício que se recomenda. É saber dizer não, a nós mesmos e aos outros, no momento certo, da forma certa, pela razão certa e, claro está, à pessoa certa. Exige que não nos deixemos levar pelo calor da emoção momentânea, da raiva sobretudo, que nos leva a reacções exageradas. E tal pode começar com uma coisa tão simples como contar até dez devagarinho.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Just... do it!


Às oito e meia da noite o ar ainda estava quente e pesado. Respirei fundo e comecei, angustiada. Depois da escadaria foi mais fácil acertar o passo e depressa cheguei ao entroncamento perto do rio. Tomei a direita.
Apeteciam-me as luzes de Lisboa ao fundo, o Cristo Rei iluminado (mesmo que de costas para mim) e as luzes da ponte qual cidadela de um navio. De um navio daqueles que partem para longe e deixam saudades na ponta de lenços brancos agitados do cais. E eu, que já tive saudades sem ter partido e até de viagens que não fiz, sonho com um navio, com uma partida a sério e com saudades que doam mais do que estas todas que já senti para que possa sossegar e dizer, daquelas, não-foi-nada-afinal.
A boca seca fez-me descer os olhos do horizonte e procurar a frescura da água do rio, mesmo ali ao lado. Nada. Nem uma brisa, apenas o ar húmido a tornar-se pastoso como o fundo do rio na maré baixa. Sorri-lhe ao achar outra vez que temos mais em comum - a exuberância da maré alta e o lodo na maré baixa.
A sazonalidade dos estados tranquiliza-me. Sei que a frustração é um sentimento passageiro, como sei do que preciso nessas ocasiões. De correr, de me superar de alguma forma. Propus-me a dobrar a distância que de vez em quando faço, oito quilómetros em vez de quatro. Aí não há espaço nem tempo para manias nem auto-comiseração. Ou me concentro na respiração e na cadência ou desisto. Concentrei-me.
Regressei em paz comigo, uma paz suada, trazida a pulso lá do fundo de mim que é como o leito do rio - onde ficam as marcas das águas que passam e não voltam. As pessoas, como os rios, conhecem-se quando se lhes conhece o fundo. Na maré baixa. Estejamos ou não preparados para sentir o desconforto do lodo, a verdade é que é no fundo que assentam os pés. Tudo o resto vai à deriva, ao sabor da corrente.

É hoje, já hoje, que vou ter um dia melhor.

domingo, 21 de junho de 2009

Fora de tempo


Qual é o momento certo para fazermos as coisas acontecerem? Qual o momento certo para começarmos, acabarmos ou inflectirmos nas nossas vidas? Não sei e não creio que alguma vez venha a saber.
Indiferente, o turbilhão corre contra o erro na contagem do tempo, ignorando que de pouco nos serve. As histórias de amor terminarão todas, sem excepção, demasiado cedo ou demasiado tarde.
Tenho para mim que, apesar de paradoxal, é nas que terminam demasiado cedo que seria possível o foram-felizes-para-sempre.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Há sempre


Há sempre uma janela abrindo-se quando outras se fecham. Uma janela abrindo-se e um pássaro lembrando a Primavera.

Se nos lembrarmos que os trincos também servem para descerrar.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Asinus asinum fricat.


Não tenho como definir felicidade. Sei senti-la. E a dos meus dias de hoje é diferente e é bem melhor, mesmo sendo intermitente, do que a do passado, em que coloquei nos ombros de outro essa tarefa. Encarregou-se a vida de me mostrar que isso é pobreza de espírito e que dificilmente alguém se sentirá feliz tendo a obrigação de fazer a felicidade de outrem. Mostrou-me também que, mais dia menos dia, tal como um animal atordoado pelo excesso de carga, o entusiasmo do outro colapsa e passa a viver num martírio ou recusa-se a avançar, dá um pinote, joga tudo pelos ares e depois é um Deus-me-acuda.
Não advogo o salve-se quem puder, o aproveitamento egoísta do bem que nos querem, nem o pular de cerca impulsivo só porque o verde do outro lado parece mais vibrante. Digo apenas que a felicidade e a busca por ela são assuntos pessoais e intransmissíveis, cuide cada um da sua, que o que vem do outro é complemento, é a cereja sobre o (nosso) bolo. 
Estou convicta que as pessoas que são felizes juntas, verdadeiramente felizes, são aquelas em que ambos também seriam felizes sozinhos. Que estão juntos porque querem e não porque precisam. Compete a cada um saber ver a diferença.

A felicidade não é indigesta nem pode pesar na consciência. Isso é desculpa. Mas, como diz o povo, albarde-se o burro à vontade do dono. Ou isso ou asinus asinum fricat.

Ou ainda... cada um se deita na cama que faz. 

Proibi-me o lamento.