sexta-feira, 12 de junho de 2009

Cor de pérola


Tem um vestido que a deixa com ar de menina. Tanto, que mal se reconheceu ao se ver reflectida no espelho do elevador quando saíu de casa de manhã. Ainda era Primavera mas a manhã tinha a tonalidade das manhãs cedo do Verão, em que uma neblina fina paira sobre as águas espelhadas do rio. O dia fez-se quente tal como prometia. Com o pretexto de que o vestido era fresco, atravessou o campus sob o sol abrasador e foi almoçar na esplanada à sombra dos pinheiros, aquela que tinha visto uns dias antes e onde não se tinha sentado porque estava frio e o sol apetecia mais. Comprou o almoço no self-service e sentou-se a gozar a frescura do banco de azulejo atravessando o vestido, que é o mais doce dos três vestidos que tem. Nessa tarde houve quem viesse despedir-se dela.
Quando, no regresso a casa, tomou o elevador, fê-lo na companhia duma menina de vestido cor de pérola. Nunca a tinha visto, parece que é nova lá no prédio.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Sal, sol e soldades


Depois houve convívio e muito riso. A tarde foi de preguiça, passada na praia. Areia, corpo salgado de mar e sol, malgré os avisos sobre a radição UV elevada. A que senti ao fim do dia sob a água morna do chuveiro, à noite contra os lençóis e hoje, ainda, sob a t-shirt.
Sei que é burrice e que não é para repetir mas, tra me e me, soube-me bem, teve o sabor da adolescência - quando o começo das férias era marcado pelo primeiro escaldão do verão.

Sim, sei, penitentiate, ha fatto male: sol, sal e vento são bons para seca do bacalhau. Mas tinha soldades como dizia o mano quando era pequeno...

Não são como divãs


Estive lá com a miúda mais pequena, que foi campeã dos achados mais estranhos: um lava-loiças, vários garrafões, quatro grades cheias de garrafas de vinho, tudo vazio claro está, e uma arca de madeira (sem tesouro). Tudo nas dunas, à beira mar. A praia estava pejada de caixas de esferovite, invólucros de bastonetes luminosos e restos de fio de pesca e anzóis deixados pelos pescadores, prontos a fisgar um calcanhar azarado. E garrafas de plástico às centenas. Fico-me por aqui na descrição, quem já foi à praia, a uma praia qualquer, sabe o que lá há.
Numa manhã, um grupo de várias dezenas de voluntários varreu a praia numa distância de 1,5 Km e apanhou lixo que deu para encher um camião.
Acho difícil não se gostar do mar, da praia, da areia dourada, dos tons de azul e verde do céu e do mar. Da brisa, do cheiro da maresia, do som do rebentamento das ondas, das dunas, das conchas, do sol na pele. E depois há estas coisas, que roçam o incompreensível - não se cuidar daquilo de que se gosta. É que quem suja é quem lá vai. Gente que vai à praia porque gosta. Têm razão os que dizem que a estupidez é um tema inesgotável - é que não tem limite.

Mas havia crianças a limpar a praia, muitas. E por isso, também, esperança.

Talento


Depois disto não voltarei a olhar para ela da mesma forma. Cresceu. Tem 16 anos feitos há pouco e este trabalho é dela. É minha sobrinha e eu estou felicíssima por descobrir a pessoa em que se está a tornar.

Desconfio que mais dia menos dia passaremos a vê-la nos outdoors.

Somatotrofina, a falta que tu fazes!


Acredito pouco em pessoas de quereres condicionais e vontades adiadas. Ou se quer ou se não quer. Quando alguém nos diz que não sabe se quer é porque não quer. Ou porque está à espera de ver como pode ganhar mais, ou perder menos ou ainda, como se fosse possível, ('tadinhos, são bambis, ainda não sabem que não é possível) ter o melhor de dois mundos.
A relação que estas pessoas geralmente têm com o fazer é outra coisa que cada vez mais me incomoda, o que faz com que as relegue para um plano pouco respeitoso. Pela utilização frequente do Eu até que queria mas não posso por causa de ou do ou da. É que isto, dito assim, soa a proibição, soa a gente que é mandada, que não tem voz na matéria que lhe mais diz respeito - as suas acções. Tenho francamente mais respeito, corrijo, tenho todo o respeito, pelas pessoas que dizem: eu gostaria de fazê-lo mas escolho não fazer (porque assumo limitações ou porque tenho outras prioridades). A diferença é, tão só, toda. Como a diferença que existe entre a horizontalidade e a verticalidade.
Os outros são casos tristes, com recuperação sine die. Gente que, decididamente, não quer crescer.

Anjinhos destes? A descartar.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Irei, um dia.


Não tenho planos grandiosos a curto, médio ou a longo prazo e isso por vezes entristece-me. Nessas alturas acende-se aquela vontade de partir, de deixar tudo para trás. Chegar a um porto novo, queimar os navios e obrigar-me a uma vida nova.
Depois sei que seria igual, que não é uma questão de paisagem nem o pertencer a um lugar. Não adianta se do que se precisa não é de mudar de ares mas de um coração novo.

Sei disto e foi do que me lembrei quando dei por mim e verificar, ponto por ponto, que cumpria os requisitos enumerados num anúncio que encontrei numa newsletter que recebo e se dedica à divulgação de emprego científico. Era na Austrália.

Outra coisa que sei é que não é a grandiosidade dos planos que me faz feliz. É o quão bem faço aquilo a que me dedico, por insignificante que seja, mas que acrescenta brilho aos olhos daqueles que amo.

Ainda assim, receio que um dia vá mesmo.

domingo, 7 de junho de 2009

Não m'espanto


mas m'avergonho dos números da abstenção.
As minhas adolescentes não compreendem como pode ser tão mal cuidado um direito que custou tantas vidas a conquistar. Ouvi-lhes a indignação e os relatos da luta pelo direito ao voto por parte das mulheres. Ouvi-as calada. Não soube explicar-lhes porquê, não encontro argumentos válidos para justificar este baixar de braços. Sendo um direito de cada um, não me parece que isto seja realmente exercício consciente de um direito, parece-me demissão. Aflige-me o exemplo que estes pais, os que o forem, dão aos filhos - a geração que nos governará dentro de vinte anos ou menos. Depois falámos de liberdade e da responsabilidade que lhe está associada e sem a qual a dita liberdade é pouco mais do que uma miragem. Porque quando não sabemos o que queremos nem para onde queremos ir, surgirá sempre alguém que o decidirá por nós. E não se iludam, meninos e meninas, que não será um príncipe bondoso e valente montado num cavalo branco como nos contos de fadas, há-de ser alguém com um cajado a distribuir bordoada pelos lombos.
Pergunto onde estiveram hoje e o que fizeram os milhões de descontentes. Acho que no sofá ou no Algarve a gozar uma mega ponte, porque a crise é intermitente. Cada vez mais tenho vergonha do povo apático, ignorante e de memória curta que somos.

sábado, 6 de junho de 2009

Lebre por gato


Quando chegou o dia das crianças terem um um animal de estimação soube imediatamente que a coelha seria uma espécie de terceira filha. Ou seja, quem zela por que haja cama, mesa e roupa lavada (leia-se feno na gaiola em regime aberto, comida e água fresca) sou eu.
Ontem, na montra da loja dos animais, estava uma gaiola enorme onde uma meia dúzia de coelhinhos ternurentos e lanzudos pulavam de um lado para outro. Em frente, as pessoas demoravam-se a observá-los. Em particular, um pequenito duns quatro anos, estava completamentente rendido. Tanto derretia com uns Ohhh... quando algum se aninhava, como dava pulos de excitação quando outro dava um pinote. A mãe, num entusiasmo igual ao do petiz, pergunta-lhe queres um, queres? E, sem dar tempo que este lhe respondesse, vira-se para o marido e diz Podemos? Podemos comprar-lhe um gatinho destes?

Pois... ando por sítios mal frequentados.

Todas por uma



Fui buscá-la a meio da tarde. Veio receber-me a meio da escadas, sorridente, e abraçou-me logo ali. Poucas coisas me emocionam tanto ou me fazem mais feliz do que a alegria com que as minhas filhas me recebem diariamente. Isso e o "mamã, tive tantas saudades tuas...", ao que acrescentou antes mesmo de chegarmos lá a cima: "Já sei as notas, são dois dezoitos, dois dezanoves e um vinte. É bom mas não chega para o que eu quero...". Sem desfazer o sorriso lançou "Levas-me à festa? Hoje é dia de festa, acabaram as aulas, combinámos um churrasco na garagem do David...". Levei-a, claro. Pelo caminho pediu que a fossem buscar cedo, que sábado é dia de estudo para aquele bocadinho que ainda falta.
É com este moço a cantar que o dia vai arrancar de manhã nesta casa. Música, sol mesmo que chova e muita, mesmo muita, boa disposição. Porque o sorriso instalado é a melhor base para o trabalho produtivo. É que a miúda mais crescida tem tanto, mas tanto, que estudar...

E eu, tanto que aprender sobre determinação.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Com Troll


Creio que está na nossa natureza, mais limitada pelo medo do que movida pela esperança, por via de reduzirmos o mal que nos possa acontecer e de aumentar o proveito que possamos tirar das situações, tentar ter controle sobre o que nos rodeia. Os cérebros mais analíticos constroem modelos que exprimem o desfecho em função de um conjunto de variáveis que se presumem completamente controladas. O que sobra, a diferença entre o que o modelo vai prevendo e os desfechos que se vão sucedendo, é o mal amado erro. Vamos na senda do melhor modelo, daquele que cumpre o seu desígnio de preditor acurado, que não comete erros, que pouco deixa nas mãos do acaso.

No desejo do conhecimento antecipado do desfecho e da eliminação da possibilidade de erro, substituimos a esperança por expectativa e saímo-nos, a maioria das vezes, mal.

Pois... acreditar que é possível controlar tudo é coisa de troll.
Ah! Outra coisa: cérebros analíticos e modelo são fruto de deformação profissional. Substituam-se por Chicos espertos e esquema, trama ou ardil, respectivamente, e fica a ideia universal apesar de dar tudo mais ou menos no mesmo - o tiro no pé. Ou os burros n'água, já que não há duas sem três e já havia burros em dois posts recentes.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Grátis, mesmo grátis.


Acordei assim por dentro. Sem pressa, dei comigo a sorrir à coelha, ao vaso da salsa, às nuvens cinzentas sobre o rio, e a pensar como gosto das manhãs frescas. À minha volta tudo parece igual a ontem, nem um motivo mais, nem um menos, para este entusiasmo. 

Já passa das três da tarde e o ribombar continua. E se for uma crise cardíaca e não alegria de viver, assim, só porque sim?

Porquê a dificuldade em acreditar nas coisas simples?

Asinus asinum fricat.


Não tenho como definir felicidade. Sei senti-la. E a dos meus dias de hoje é diferente e é bem melhor, mesmo sendo intermitente, do que a do passado, em que coloquei nos ombros de outro essa tarefa. Encarregou-se a vida de me mostrar que isso é pobreza de espírito e que dificilmente alguém se sentirá feliz tendo a obrigação de fazer a felicidade de outrem. Mostrou-me também que, mais dia menos dia, tal como um animal atordoado pelo excesso de carga, o entusiasmo do outro colapsa e passa a viver num martírio ou recusa-se a avançar, dá um pinote, joga tudo pelos ares e depois é um Deus-me-acuda.
Não advogo o salve-se quem puder, o aproveitamento egoísta do bem que nos querem, nem o pular de cerca impulsivo só porque o verde do outro lado parece mais vibrante. Digo apenas que a felicidade e a busca por ela são assuntos pessoais e intransmissíveis, cuide cada um da sua, que o que vem do outro é complemento, é a cereja sobre o (nosso) bolo. 
Estou convicta que as pessoas que são felizes juntas, verdadeiramente felizes, são aquelas em que ambos também seriam felizes sozinhos. Que estão juntos porque querem e não porque precisam. Compete a cada um saber ver a diferença.

A felicidade não é indigesta nem pode pesar na consciência. Isso é desculpa. Mas, como diz o povo, albarde-se o burro à vontade do dono. Ou isso ou asinus asinum fricat.

Ou ainda... cada um se deita na cama que faz. 

Proibi-me o lamento.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O melhor do mundo


Gente feliz tem lágrimas.
Ouvi uma história de amor enquanto rodava nas mãos um copo com o Syrah da Casa Ermelinda Freitas, o tal premiado em prova cega que fez dele o melhor do mundo. Caíram-me as lágrimas. Não sei se pela felicidade daquela história, se pela ausência da minha. Na dúvida, atribuí-a ao tinto que é, de facto, de ir às lágrimas.

Às vezes tenho de ser assim, bruta. Ou não produziria lágrimas à velocidade que consigo gastá-las quando me contam histórias de amor.

Nota bene


Não saboreies as primeiras de forma displicente apenas por achares que ainda muitas te aguardam. Cada uma é única e especial e não são as últimas apreciadas à exaustão que te farão recuperar o que desperdiçaste.

A ti - sim, é consigo - deixa-me recordar-te que uma taça meio vazia é, também, uma taça meio cheia. E que cada um de nós pode muito mais do que imagina. Ai se pode!
Há, até, quem o tenha aprendido na escola...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Não esperes nada de mim


Não esperes nada de mim. 
Não tenho regaço, não sei que fiz do colo nem dos braços que te aguardavam, não sei onde os deixei. Não preciso deles, já não te espero. Como não te encontrarei se te vir. Não to tinha dito ainda mas por vezes tento recordar-te e já não consigo.

Não esperes nada de mim, não me esperes. Não saberia reconhecer-te.

Obrigada, Tempo.