quinta-feira, 18 de junho de 2009

A quem me faz feliz

Nos últimos tempos parece-me que o que mais tenho feito é despedir-me de pessoas de quem gosto. No momento é como se tirassem bocadinhos de dentro de mim, sinto-me esvaziar. Mas depois sereno, já não me desespero. Percebi há já algum tempo, diria anos, que toda a presença é precária, que toda a vida é precária, e que a perda, a mudança ou a transformação têm muito mais chance de ocorrer do que a permanência. Aprendi também a aceitar os outros tal como são e a não esperar deles mais do que lhes é possível dar, desde que assimilei a minha própria inconstância, o turbilhão que são tantas vezes os meus sentimentos e as minhas limitações. Vivo melhor. As lágrimas lavam e o riso dá brilho, aceito-os tão graciosamente quanto vou sendo capaz. Metade do mundo perfeito está encontrado e a outra metade seguir-se-á. O Amor em Paz.



Achei durante muito tempo que não encontraria esse Amor em Paz (que costumava ouvir na voz da Paula Morelenbaum) mas também isso mudou quando percebi que procurava de forma errada. Ocorre-me a história da mulher preguiçosa a quem uma fada promete enviar dez anõezinhos invisíveis para ajudá-la nas tarefas domésticas e que só no final do dia, com a casa toda arrumada sem ter posto a vista em cima dos anões mas confiando que eles lá andavam, percebe que a ajuda esteve sempre na ponta dos próprios braços. Enfio a carapuça, é a mim mesma que devo encontrar antes de mais e assim vou aprendendo a consertar o meu coração.



Gosto deste moço, de quem ouvi numa canção

Sigo o meu caminho
Mas não vou sozinho
Trago esse meu coração que diz
"Amo as estrelas, amo certos olhos
amo a quem me faz feliz"

E porque há quem me faça feliz e esteja de partida, hoje foi dia de festa. Não choro nas despedidas, é desperdício. Ao invés, haja alegria, esteja cada um no seu melhor. Não haverá falta na ausência.

Ausência

Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

O N voltará e haverá festa no regresso. Porque ele diz, a nosso respeito, eles são malucos mas a família não sabe e eu, moça mais comedida, digo que nada disso, que apenas quando um diz mata já o outro está a esfolar. Mais ou menos como no video aí abaixo. Ah!... e esses copitos da Duvel, flutuam melhor que as flutes. E há um armário cheio de copos alinhados para a prova de natação. Aqueles 24, todos diferentes, da peregrinação às brasseries belges...



Já nós... nunca te tive, não tenho como sentir-te a falta. Explica-me, então, que dor é esta que sinto quando me rio?

Tentações


Levantei-me cedo e cedo fiz aquilo que temia me levasse o dia todo. Depois, o cheiro do café acabado de fazer a encher o ar da cozinha, Amy no ipod mais o seu Frank e o ar fresco da manhã subindo do rio.
Ontem carreguei tudo para casa, faculdade para trás das costas por um dia e uma lista de tarefas razoavelmente ambiciosa a cumprir. Como prémio pelo bom começo do dia espreito as gordas do Público online e demoro-me no P2, levada pela curiosidade que a palavra tentação sempre desperta em mim. Fui ver a que não resistem os nossos chefs, o que lhes desperta a gula, e descubro que o chocolate, as bifanas e o queijo estão no topo do que os tira do sério.
Para mim mandava mandava vir queijo, tinto e um par de olhos, deliciosamente combinados. Ou só os dois últimos, ou só mesmo os últimos, que cumprissem a difícil tarefa de se encontrarem a valer com os que estão aí acima e me colocassem no sério.

Qualq'onde

Um dia comprei um livro só pelo título.

Depois, durante muito tempo, guardei-o e não o quis ler porque adivinhava que nele nenhuma história era como a minha, que aquele título estava ali mal. Apenas o título, nada mais tinha sido escrito para mim. Mas é próprio do espírito humano teimar em desafiar certas certezas, testar se algo resiste ao estrago, arrancar a crosta fresca para a ferida sangrar e, por isso, uma tarde sentei-me a lê-lo, à meia dúzia de historietas ridículas ao pé da minha, a aprofundar cada vez mais a certeza de que apenas a minha história tinha aquele título. Depois disso, com a certeza de que não me merecia, pu-lo num envelope e arrumei-o no sótão.
Hoje fui buscá-lo e talvez o releia. Talvez me reveja nos personagens, tão corriqueira é a minha unicidade.

Há sempre


Há sempre uma janela abrindo-se quando outras se fecham. Uma janela abrindo-se e um pássaro lembrando a Primavera.

Se nos lembrarmos que os trincos também servem para descerrar.

"Tão cedo passa tudo quanto passa"


Os últimos dias não foram diferentes do que pensei que pudessem ser, foram só diferentes do que desejei. Afinal, são tão poucas as coisas que correm como o planeado, quanto mais como o que se deseja, que é sempre a conjugação de tudo o que se acredita ser de melhor.
Ao rodopiar de esperanças sucede a calma. Lembro-me de fazê-lo em criança, de recriar no balde da praia, sem saber, aquele que viria a ser o modelo das minhas emoções: um terço de areia, dois terços de água, mexer bem, com toda a força, gerando um remoinho. Depois observava. Deixava que o remoinho cessasse, a areia assentasse e a água recuperasse a limpidez para fazer tudo de novo.
Já não provoco remoinhos mas sinto-os chegar. Nessas alturas sei o que se seguirá, o turbilhão, a visão turva, a inconstância, como sei que a limpidez voltará. Como hoje, em que ficou tudo claro.

Não acredito no que escrevi. Provoco-os.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

De volta


Esperei-te. Quero que o saibas.

Mesmo que nunca to diga.

domingo, 14 de junho de 2009

Barómetro


São desconfortáveis os dias como estes últimos, em que não senti qualquer urgência em escrever. Mesmo agora não sinto e no entanto aqui estou. Porque o dia está a terminar e não quero que passe sem registo.
Ontem a miúda mais crescida perguntou-me qual era o dom que eu gostaria de ter. Respondi-lhe sem hesitar que gostaria de ser capaz de escrever de forma inspirada. Ser capaz de criar personagens completos, com história e alma. E com vidas que se cruzassem com outras vidas. Ser capaz de escrever de forma contínua e articulada enredos que prendessem a atenção e deixassem vontade de mais. Escrever mais do que estes desabafos que não são mais do que dores de alma ou bolhas de oxigénio que vou deixando para uma emergência, devidamente etiquetados de Alegrias ou Esperança para que os encontre rapidamente. Pedrinhas deixadas no caminho, não como na história dos irmãos levados para a floresta que iam deixando cair migalhas para que pudessem encontrar o caminho de volta, mas para que não me esqueça que há caminhos que não quero voltar a fazer.

Preciso do barómetro apontando Change. Tanto.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Não sei...


... se haveria de gostar dos teus dedos no meu cabelo, percorrendo os caracóis.

Cor de pérola


Tem um vestido que a deixa com ar de menina. Tanto, que mal se reconheceu ao se ver reflectida no espelho do elevador quando saíu de casa de manhã. Ainda era Primavera mas a manhã tinha a tonalidade das manhãs cedo do Verão, em que uma neblina fina paira sobre as águas espelhadas do rio. O dia fez-se quente tal como prometia. Com o pretexto de que o vestido era fresco, atravessou o campus sob o sol abrasador e foi almoçar na esplanada à sombra dos pinheiros, aquela que tinha visto uns dias antes e onde não se tinha sentado porque estava frio e o sol apetecia mais. Comprou o almoço no self-service e sentou-se a gozar a frescura do banco de azulejo atravessando o vestido, que é o mais doce dos três vestidos que tem. Nessa tarde houve quem viesse despedir-se dela.
Quando, no regresso a casa, tomou o elevador, fê-lo na companhia duma menina de vestido cor de pérola. Nunca a tinha visto, parece que é nova lá no prédio.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Sal, sol e soldades


Depois houve convívio e muito riso. A tarde foi de preguiça, passada na praia. Areia, corpo salgado de mar e sol, malgré os avisos sobre a radição UV elevada. A que senti ao fim do dia sob a água morna do chuveiro, à noite contra os lençóis e hoje, ainda, sob a t-shirt.
Sei que é burrice e que não é para repetir mas, tra me e me, soube-me bem, teve o sabor da adolescência - quando o começo das férias era marcado pelo primeiro escaldão do verão.

Sim, sei, penitentiate, ha fatto male: sol, sal e vento são bons para seca do bacalhau. Mas tinha soldades como dizia o mano quando era pequeno...

Não são como divãs


Estive lá com a miúda mais pequena, que foi campeã dos achados mais estranhos: um lava-loiças, vários garrafões, quatro grades cheias de garrafas de vinho, tudo vazio claro está, e uma arca de madeira (sem tesouro). Tudo nas dunas, à beira mar. A praia estava pejada de caixas de esferovite, invólucros de bastonetes luminosos e restos de fio de pesca e anzóis deixados pelos pescadores, prontos a fisgar um calcanhar azarado. E garrafas de plástico às centenas. Fico-me por aqui na descrição, quem já foi à praia, a uma praia qualquer, sabe o que lá há.
Numa manhã, um grupo de várias dezenas de voluntários varreu a praia numa distância de 1,5 Km e apanhou lixo que deu para encher um camião.
Acho difícil não se gostar do mar, da praia, da areia dourada, dos tons de azul e verde do céu e do mar. Da brisa, do cheiro da maresia, do som do rebentamento das ondas, das dunas, das conchas, do sol na pele. E depois há estas coisas, que roçam o incompreensível - não se cuidar daquilo de que se gosta. É que quem suja é quem lá vai. Gente que vai à praia porque gosta. Têm razão os que dizem que a estupidez é um tema inesgotável - é que não tem limite.

Mas havia crianças a limpar a praia, muitas. E por isso, também, esperança.

Talento


Depois disto não voltarei a olhar para ela da mesma forma. Cresceu. Tem 16 anos feitos há pouco e este trabalho é dela. É minha sobrinha e eu estou felicíssima por descobrir a pessoa em que se está a tornar.

Desconfio que mais dia menos dia passaremos a vê-la nos outdoors.

Somatotrofina, a falta que tu fazes!


Acredito pouco em pessoas de quereres condicionais e vontades adiadas. Ou se quer ou se não quer. Quando alguém nos diz que não sabe se quer é porque não quer. Ou porque está à espera de ver como pode ganhar mais, ou perder menos ou ainda, como se fosse possível, ('tadinhos, são bambis, ainda não sabem que não é possível) ter o melhor de dois mundos.
A relação que estas pessoas geralmente têm com o fazer é outra coisa que cada vez mais me incomoda, o que faz com que as relegue para um plano pouco respeitoso. Pela utilização frequente do Eu até que queria mas não posso por causa de ou do ou da. É que isto, dito assim, soa a proibição, soa a gente que é mandada, que não tem voz na matéria que lhe mais diz respeito - as suas acções. Tenho francamente mais respeito, corrijo, tenho todo o respeito, pelas pessoas que dizem: eu gostaria de fazê-lo mas escolho não fazer (porque assumo limitações ou porque tenho outras prioridades). A diferença é, tão só, toda. Como a diferença que existe entre a horizontalidade e a verticalidade.
Os outros são casos tristes, com recuperação sine die. Gente que, decididamente, não quer crescer.

Anjinhos destes? A descartar.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Irei, um dia.


Não tenho planos grandiosos a curto, médio ou a longo prazo e isso por vezes entristece-me. Nessas alturas acende-se aquela vontade de partir, de deixar tudo para trás. Chegar a um porto novo, queimar os navios e obrigar-me a uma vida nova.
Depois sei que seria igual, que não é uma questão de paisagem nem o pertencer a um lugar. Não adianta se do que se precisa não é de mudar de ares mas de um coração novo.

Sei disto e foi do que me lembrei quando dei por mim e verificar, ponto por ponto, que cumpria os requisitos enumerados num anúncio que encontrei numa newsletter que recebo e se dedica à divulgação de emprego científico. Era na Austrália.

Outra coisa que sei é que não é a grandiosidade dos planos que me faz feliz. É o quão bem faço aquilo a que me dedico, por insignificante que seja, mas que acrescenta brilho aos olhos daqueles que amo.

Ainda assim, receio que um dia vá mesmo.

domingo, 7 de junho de 2009

Não m'espanto


mas m'avergonho dos números da abstenção.
As minhas adolescentes não compreendem como pode ser tão mal cuidado um direito que custou tantas vidas a conquistar. Ouvi-lhes a indignação e os relatos da luta pelo direito ao voto por parte das mulheres. Ouvi-as calada. Não soube explicar-lhes porquê, não encontro argumentos válidos para justificar este baixar de braços. Sendo um direito de cada um, não me parece que isto seja realmente exercício consciente de um direito, parece-me demissão. Aflige-me o exemplo que estes pais, os que o forem, dão aos filhos - a geração que nos governará dentro de vinte anos ou menos. Depois falámos de liberdade e da responsabilidade que lhe está associada e sem a qual a dita liberdade é pouco mais do que uma miragem. Porque quando não sabemos o que queremos nem para onde queremos ir, surgirá sempre alguém que o decidirá por nós. E não se iludam, meninos e meninas, que não será um príncipe bondoso e valente montado num cavalo branco como nos contos de fadas, há-de ser alguém com um cajado a distribuir bordoada pelos lombos.
Pergunto onde estiveram hoje e o que fizeram os milhões de descontentes. Acho que no sofá ou no Algarve a gozar uma mega ponte, porque a crise é intermitente. Cada vez mais tenho vergonha do povo apático, ignorante e de memória curta que somos.