terça-feira, 30 de junho de 2009

Quem quer...

... encontra um meio.

Não sei se a teimosia frutifica, a tenacidade sei que sim. Isto o que é? É outro neurónio a menos- diz a tainha.

Não terei


Não sei como reagir a notícias destas. Fico perto da apatia, que deve ser uma espécie de negação calada. Primeiro pareceu-me que tinha deixado de ouvir para, depois, o silêncio ser lentamente tomado por um ruído grave e crescente que me faz tremer o peito por dentro. As avalanches devem ser assim, quando se ouvem ao longe. Depois avançam furiosas, cobrem tudo e instala-se a escuridão debaixo do manto branco.
Abri o e-mail a correr, queria mandar-lhe fotos e dizer que sim, que me rendo, que a neve também é, a par com pôr copos a boiar, o máximo como ele diz. Adiantou-se-me, para me dizer, em poucas linhas, Pois, fizeram-me o tal exame, estou a escrever-te do hospital e assinou, como sempre, Enviado a partir do meu iPod. Fiquei quieta a ouvir chegar a avalanche, que afinal é água que enche o peito e transborda.
Não sei reagir a coisas destas, não sei o que se diz. Sinto a pequenez das minhas queixas e a convicção de que, mais do que nunca, o tempo tem de ser de esperança, aquela que tento aprender e de que me sinto tão ignorante.
Corri para lá com uma pressa solitária contra a cidade indolente. Ao meu Posso? devolveu Olha, olha, a mata-esfola. Entrei. Não tenhas medo disto, eu safo-me. Não tenho, menti. Depois rimo-nos e planeámos dias ao sol com todos os E se? arredados.
As horas nos hospitais correm lentas, mesmo naqueles com ambiente zen, e a nossa urgência não ecoa. Ecoa só a avalanche trazendo todos os E se? de que não quero ouvir falar.

Não terei medo.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Até já

Vou até ali.
Coincidência feliz, estarei lá longe enquanto durarem as festanças populares cá da terra.
Gosto tanto desta terra quanto abomino feiras, música a condizer, barracas, farturas, churros e carros-de-choque. Pena, mesmo, só tenho de não ver a procissão mais a banda filarmónica a tocar, grave, quando S.Pedro é levado para a benção das embarcações atracadas no cais velho da vila.
Menos a calhar, está a decisão de S. Pedro de mandar abrir a torneira do céu lá para onde vou. Desconfio que me queria por cá.

Ou isso, ou resolveu castigar-me pela soberba. A da questão das feiras e a de achar que Ele sabe de mim.

Boa sorte


Porque trabalhar muito e querer muito não basta quando aquilo que se quer é muito difícil de alcançar. Porque qualquer deslize pode comprometer o desfecho de anos de trabalho dedicado. Boa sorte, miúda!

domingo, 21 de junho de 2009

Fora de tempo


Qual é o momento certo para fazermos as coisas acontecerem? Qual o momento certo para começarmos, acabarmos ou inflectirmos nas nossas vidas? Não sei e não creio que alguma vez venha a saber.
Indiferente, o turbilhão corre contra o erro na contagem do tempo, ignorando que de pouco nos serve. As histórias de amor terminarão todas, sem excepção, demasiado cedo ou demasiado tarde.
Tenho para mim que, apesar de paradoxal, é nas que terminam demasiado cedo que seria possível o foram-felizes-para-sempre.

A ameixa mais doce

Pelas nove da manhã deitei-me à sombra da ameixeira, a ver o azul do céu entre os ramos carregados de ameixas e folhas brilhantes. Passou pouco tempo até que a minha atenção se centrasse na corrida frenética das formigas tronco acima, tronco abaixo, e me lembrasse das histórias que tenho com elas, embora apenas uma se conte com graça na família. Resume-se a um carreiro delas comido por mim aos quatro anos, caçadas uma após outra por um dedito molhado depois de, ao almoço, e para evitar que não terminasse a refeição por ter visto uma formiga a rondar-me o prato, o pai me ter dito "até a podias ter comido, fazem os olhos bonitos". Não recomendo o pitéu, são duma acidez tão inesquecível quanto inenarrável.
Por um dia larguei a minha formiguice e fui cigarra. Vi céu o dia inteiro, entre sol, água, espreguiçadeira e risos. Comi a ameixa mais doce, deitei-me à sombra e adormeci ouvindo isto



Out of the tree of life I just picked me a plum
You came along and everything started to hum
Still it's a real good bet the best is yet to come

The best is yet to come and babe, won't it be fine?
You think you've seen the sun but you ain't seen it shine
(...)

Não a escutei até ao fim mas sei que sim, que o melhor ainda está para vir.

Podias acreditar nisto comigo...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A quem me faz feliz

Nos últimos tempos parece-me que o que mais tenho feito é despedir-me de pessoas de quem gosto. No momento é como se tirassem bocadinhos de dentro de mim, sinto-me esvaziar. Mas depois sereno, já não me desespero. Percebi há já algum tempo, diria anos, que toda a presença é precária, que toda a vida é precária, e que a perda, a mudança ou a transformação têm muito mais chance de ocorrer do que a permanência. Aprendi também a aceitar os outros tal como são e a não esperar deles mais do que lhes é possível dar, desde que assimilei a minha própria inconstância, o turbilhão que são tantas vezes os meus sentimentos e as minhas limitações. Vivo melhor. As lágrimas lavam e o riso dá brilho, aceito-os tão graciosamente quanto vou sendo capaz. Metade do mundo perfeito está encontrado e a outra metade seguir-se-á. O Amor em Paz.



Achei durante muito tempo que não encontraria esse Amor em Paz (que costumava ouvir na voz da Paula Morelenbaum) mas também isso mudou quando percebi que procurava de forma errada. Ocorre-me a história da mulher preguiçosa a quem uma fada promete enviar dez anõezinhos invisíveis para ajudá-la nas tarefas domésticas e que só no final do dia, com a casa toda arrumada sem ter posto a vista em cima dos anões mas confiando que eles lá andavam, percebe que a ajuda esteve sempre na ponta dos próprios braços. Enfio a carapuça, é a mim mesma que devo encontrar antes de mais e assim vou aprendendo a consertar o meu coração.



Gosto deste moço, de quem ouvi numa canção

Sigo o meu caminho
Mas não vou sozinho
Trago esse meu coração que diz
"Amo as estrelas, amo certos olhos
amo a quem me faz feliz"

E porque há quem me faça feliz e esteja de partida, hoje foi dia de festa. Não choro nas despedidas, é desperdício. Ao invés, haja alegria, esteja cada um no seu melhor. Não haverá falta na ausência.

Ausência

Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

O N voltará e haverá festa no regresso. Porque ele diz, a nosso respeito, eles são malucos mas a família não sabe e eu, moça mais comedida, digo que nada disso, que apenas quando um diz mata já o outro está a esfolar. Mais ou menos como no video aí abaixo. Ah!... e esses copitos da Duvel, flutuam melhor que as flutes. E há um armário cheio de copos alinhados para a prova de natação. Aqueles 24, todos diferentes, da peregrinação às brasseries belges...



Já nós... nunca te tive, não tenho como sentir-te a falta. Explica-me, então, que dor é esta que sinto quando me rio?

Tentações


Levantei-me cedo e cedo fiz aquilo que temia me levasse o dia todo. Depois, o cheiro do café acabado de fazer a encher o ar da cozinha, Amy no ipod mais o seu Frank e o ar fresco da manhã subindo do rio.
Ontem carreguei tudo para casa, faculdade para trás das costas por um dia e uma lista de tarefas razoavelmente ambiciosa a cumprir. Como prémio pelo bom começo do dia espreito as gordas do Público online e demoro-me no P2, levada pela curiosidade que a palavra tentação sempre desperta em mim. Fui ver a que não resistem os nossos chefs, o que lhes desperta a gula, e descubro que o chocolate, as bifanas e o queijo estão no topo do que os tira do sério.
Para mim mandava mandava vir queijo, tinto e um par de olhos, deliciosamente combinados. Ou só os dois últimos, ou só mesmo os últimos, que cumprissem a difícil tarefa de se encontrarem a valer com os que estão aí acima e me colocassem no sério.

Qualq'onde

Um dia comprei um livro só pelo título.

Depois, durante muito tempo, guardei-o e não o quis ler porque adivinhava que nele nenhuma história era como a minha, que aquele título estava ali mal. Apenas o título, nada mais tinha sido escrito para mim. Mas é próprio do espírito humano teimar em desafiar certas certezas, testar se algo resiste ao estrago, arrancar a crosta fresca para a ferida sangrar e, por isso, uma tarde sentei-me a lê-lo, à meia dúzia de historietas ridículas ao pé da minha, a aprofundar cada vez mais a certeza de que apenas a minha história tinha aquele título. Depois disso, com a certeza de que não me merecia, pu-lo num envelope e arrumei-o no sótão.
Hoje fui buscá-lo e talvez o releia. Talvez me reveja nos personagens, tão corriqueira é a minha unicidade.

Há sempre


Há sempre uma janela abrindo-se quando outras se fecham. Uma janela abrindo-se e um pássaro lembrando a Primavera.

Se nos lembrarmos que os trincos também servem para descerrar.

"Tão cedo passa tudo quanto passa"


Os últimos dias não foram diferentes do que pensei que pudessem ser, foram só diferentes do que desejei. Afinal, são tão poucas as coisas que correm como o planeado, quanto mais como o que se deseja, que é sempre a conjugação de tudo o que se acredita ser de melhor.
Ao rodopiar de esperanças sucede a calma. Lembro-me de fazê-lo em criança, de recriar no balde da praia, sem saber, aquele que viria a ser o modelo das minhas emoções: um terço de areia, dois terços de água, mexer bem, com toda a força, gerando um remoinho. Depois observava. Deixava que o remoinho cessasse, a areia assentasse e a água recuperasse a limpidez para fazer tudo de novo.
Já não provoco remoinhos mas sinto-os chegar. Nessas alturas sei o que se seguirá, o turbilhão, a visão turva, a inconstância, como sei que a limpidez voltará. Como hoje, em que ficou tudo claro.

Não acredito no que escrevi. Provoco-os.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

De volta


Esperei-te. Quero que o saibas.

Mesmo que nunca to diga.

domingo, 14 de junho de 2009

Barómetro


São desconfortáveis os dias como estes últimos, em que não senti qualquer urgência em escrever. Mesmo agora não sinto e no entanto aqui estou. Porque o dia está a terminar e não quero que passe sem registo.
Ontem a miúda mais crescida perguntou-me qual era o dom que eu gostaria de ter. Respondi-lhe sem hesitar que gostaria de ser capaz de escrever de forma inspirada. Ser capaz de criar personagens completos, com história e alma. E com vidas que se cruzassem com outras vidas. Ser capaz de escrever de forma contínua e articulada enredos que prendessem a atenção e deixassem vontade de mais. Escrever mais do que estes desabafos que não são mais do que dores de alma ou bolhas de oxigénio que vou deixando para uma emergência, devidamente etiquetados de Alegrias ou Esperança para que os encontre rapidamente. Pedrinhas deixadas no caminho, não como na história dos irmãos levados para a floresta que iam deixando cair migalhas para que pudessem encontrar o caminho de volta, mas para que não me esqueça que há caminhos que não quero voltar a fazer.

Preciso do barómetro apontando Change. Tanto.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Não sei...


... se haveria de gostar dos teus dedos no meu cabelo, percorrendo os caracóis.

Cor de pérola


Tem um vestido que a deixa com ar de menina. Tanto, que mal se reconheceu ao se ver reflectida no espelho do elevador quando saíu de casa de manhã. Ainda era Primavera mas a manhã tinha a tonalidade das manhãs cedo do Verão, em que uma neblina fina paira sobre as águas espelhadas do rio. O dia fez-se quente tal como prometia. Com o pretexto de que o vestido era fresco, atravessou o campus sob o sol abrasador e foi almoçar na esplanada à sombra dos pinheiros, aquela que tinha visto uns dias antes e onde não se tinha sentado porque estava frio e o sol apetecia mais. Comprou o almoço no self-service e sentou-se a gozar a frescura do banco de azulejo atravessando o vestido, que é o mais doce dos três vestidos que tem. Nessa tarde houve quem viesse despedir-se dela.
Quando, no regresso a casa, tomou o elevador, fê-lo na companhia duma menina de vestido cor de pérola. Nunca a tinha visto, parece que é nova lá no prédio.