domingo, 12 de julho de 2009

Ai os olhos...

Sabia que existem, claro que sabia. Mas não tinha visto. E os olhos, pelo menos os meus, não são só o espelho da alma, são também a porta. Por onde entrou esta realidade que se agarrou, por dentro, ao peito e não se descola.
A cidade vibra de uma vida puxada ao limite como se não houvesse amanhã. É assim que sinto a Cidade Maravilhosa. A natureza magnífica, as montanhas e o mar, abraçadas pelo Cristo voltado para sul. Nas suas costas, trepando os morros cresce o maior mal da humanidade: a pobreza.
Ai os olhos, os meus, os do resto do mundo, que tão facilmente vêem só o que querem. Miseráveis que somos por sermos capazes de conviver, impávidos, com tudo isto.

sábado, 11 de julho de 2009

7730

... quilómetros de mar entre o corpo e o coração.
E eu que o queria aqui, comigo, bebendo desta beleza.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Até mais ver


Sei que me repito, mas se não o disser parece que rebento: detesto feiras.
E isto de se morar numa espécie de manta de retalhos feita de lugarejos colados uns aos outros, todos com história e tradição, tem as suas desvantagens: as festas da terra. Não. As festas das terras. Das terras todas aqui à volta. Que têm, infelizmente e sem excepção, muito de feira e pouco de festa. Muito de venda ambulante, lixo e bandalheira, e pouco de tradição.
Não há freguesia que não reclame o direito à sua festarola estival com ruas enfeitadas e foguetes ao fim da noite do último dia. Fossem as festas só isso mesmo, mais a procissão, e não estaria aqui a debitar fel, antes pelo contrário, o fogo de artifício deitado sobre o rio é lindo de morrer. Mas não. Festa da terra, desta ou da do lado, é sinónimo de barracas, de barulho, de ruas cortadas ao trânsito e muita, muita bermuda, manga cava e chinelo, misturada com o cheiro das farturas e o barulho estridente das sirenes no intervalos das viagens dos carros de choque.

Mas, moça de sorte que sou, vem tudo a calhar: é que se hoje começaram as festas da terreola aqui colada ao lado, é já amanhã que a menina se vai. Pouco importa se vou p'ra trabalhar. A primeira coisa que vou fazer, vai ser comprar um chinelo e tomar uma água de côco. Isso e agradecer aos céus não ser carnaval.

Certeza


As lágrimas saltaram-lhe, rápidas. Não deixou que escorressem, olhou para mim com ar sério e disse Não foi para isto que estudei.
A notícia chegou na noite da véspera do dia marcado para a afixação das pautas com os resultados do exames. Disse-lhe uma amiga, que soube pela mãe, que soube por uma amiga. Passou-se um dia e não tivémos como saber se o passa-palavra nos tinha chegado sem erro, estávamos e continuámos todo o dia longe da escola. Confirmámo-lo no dia seguinte. Feitas as contas, está a três décimas da nota de entrada na escola que quer, no curso que quer, a julgar pelas estatísticas do ano passado e que valem o que valem- valem como referência.
Não lhe disse Deixa lá, nem Não faz mal, não fui capaz, não é isso que sinto. Não é para deixar lá e, sim, se me diz que faz mal é porque faz. Disse-lhe, antes, decide o que queres fazer e não te gastes a chorar, e repeti-lhe o amor, a admiração e o respeito que lhe tenho.
Na manhã seguinte voltou ao estudo, para se preparar para uma melhoria, o que vem fazendo desde que terminou os exames principais e que interrompeu apenas por dois dias para o merecido Delta Tejo. À hora de almoço disse-me Hoje vou a Santa Maria, vou ver a Faculdade. Foi. Voltou umas horas depois, de olhos brilhantes de entusiasmo. Contou-me que procurou pessoas e lugares e que encontrou respostas para o queria saber. Que a levaram a ver cérebros em frascos, a sala onde se apresentam os trabalhos e onde se fazem provas orais de anatomia e de diagnósticos de doenças, tudo cronometrado. Porque ser bom não chega, é preciso ser-se rápido também, disse-me num sorriso largo. Sim, disse-lhe, passa por aí a excelência - ter o conhecimento e ser capaz de mostrá-lo no momento em que é necessário.

Fixou-me nos olhos de sorriso aberto. Depois disse: Aquele é o curso que quero, aquela é a Escola que quero, é a minha faculdade, tenho a certeza.
A alternativa está, parece-me, posta de parte. Acho que perdemos uma MC.


domingo, 5 de julho de 2009

Gavetas

Tento distrar-me enquanto o sono não chega e acabo a desarrumar gavetas e papeis. Encontrei isto que escrevi, fará dois anos daqui a dez dias:

Tão simples e tão dífícil também. Como na canção, I'm in my thirties now, já vivi algumas coisas... O suficiente para saber o que não quero e também uma boa parte do que quero. Sei que aprender é a minha paixão e que quero ser interessada por coisas, por pessoas e pela vida até morrer. Viver é isso, para mim. Gosto de abraços e sorrisos sinceros, gosto de gostar e de ser gostada. Gente bonita por fora não me impressiona, apenas me faz pensar que a natureza é muito generosa com alguns. Gente bonita por dentro deixa-me com a garganta apertada e isso vê-se nos meus olhos. Não me queixo de nada, a vida tratou-me sempre bem. As pessoas, nem sempre, mas sinto que sou, depois da dor, uma pessoa melhor. Tenho medo de luzes encarnadas no escuro e de não aprender sobre mim o suficiente a tempo de ser, para mim mesma, a melhor companhia pois sei que os dias de solidão baterão à porta mais tarde ou mais cedo... Seja como for, half the perfect world is found... Half the perfect world is found. Todos os dias, nas coisas mais simples que possa imaginar, como guiar no regresso a casa enquanto na rádio passa a canção que, naquele exacto momento, precisava ouvir.

Foi há dois anos e podia ter sido ontem, ou hoje. Aperta-se-me a garganta e isso ver-se-ia nos olhos se houvesse olhos que os vissem. Mas não é tristeza que sinto, não daquela que já conheci. Há gavetas que magoam, difíceis de arrumar, mas tenho confiança. É extraordinária a interminável viagem até nós mesmos.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Bailam nos olhos


Bailam nos olhos pedaços líquidos da alma.
Nessa altura tento sustê-los, deixá-los bailar, apenas. Não quero que rolem, tenho medo que me escorra a alma toda e fique vazia.

Foi o que viste esta manhã.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Estou...


Ou vinha aqui ou pegava fogo a isto.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Quem quer...

... encontra um meio.

Não sei se a teimosia frutifica, a tenacidade sei que sim. Isto o que é? É outro neurónio a menos- diz a tainha.

Não terei


Não sei como reagir a notícias destas. Fico perto da apatia, que deve ser uma espécie de negação calada. Primeiro pareceu-me que tinha deixado de ouvir para, depois, o silêncio ser lentamente tomado por um ruído grave e crescente que me faz tremer o peito por dentro. As avalanches devem ser assim, quando se ouvem ao longe. Depois avançam furiosas, cobrem tudo e instala-se a escuridão debaixo do manto branco.
Abri o e-mail a correr, queria mandar-lhe fotos e dizer que sim, que me rendo, que a neve também é, a par com pôr copos a boiar, o máximo como ele diz. Adiantou-se-me, para me dizer, em poucas linhas, Pois, fizeram-me o tal exame, estou a escrever-te do hospital e assinou, como sempre, Enviado a partir do meu iPod. Fiquei quieta a ouvir chegar a avalanche, que afinal é água que enche o peito e transborda.
Não sei reagir a coisas destas, não sei o que se diz. Sinto a pequenez das minhas queixas e a convicção de que, mais do que nunca, o tempo tem de ser de esperança, aquela que tento aprender e de que me sinto tão ignorante.
Corri para lá com uma pressa solitária contra a cidade indolente. Ao meu Posso? devolveu Olha, olha, a mata-esfola. Entrei. Não tenhas medo disto, eu safo-me. Não tenho, menti. Depois rimo-nos e planeámos dias ao sol com todos os E se? arredados.
As horas nos hospitais correm lentas, mesmo naqueles com ambiente zen, e a nossa urgência não ecoa. Ecoa só a avalanche trazendo todos os E se? de que não quero ouvir falar.

Não terei medo.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Até já

Vou até ali.
Coincidência feliz, estarei lá longe enquanto durarem as festanças populares cá da terra.
Gosto tanto desta terra quanto abomino feiras, música a condizer, barracas, farturas, churros e carros-de-choque. Pena, mesmo, só tenho de não ver a procissão mais a banda filarmónica a tocar, grave, quando S.Pedro é levado para a benção das embarcações atracadas no cais velho da vila.
Menos a calhar, está a decisão de S. Pedro de mandar abrir a torneira do céu lá para onde vou. Desconfio que me queria por cá.

Ou isso, ou resolveu castigar-me pela soberba. A da questão das feiras e a de achar que Ele sabe de mim.

Boa sorte


Porque trabalhar muito e querer muito não basta quando aquilo que se quer é muito difícil de alcançar. Porque qualquer deslize pode comprometer o desfecho de anos de trabalho dedicado. Boa sorte, miúda!

domingo, 21 de junho de 2009

Fora de tempo


Qual é o momento certo para fazermos as coisas acontecerem? Qual o momento certo para começarmos, acabarmos ou inflectirmos nas nossas vidas? Não sei e não creio que alguma vez venha a saber.
Indiferente, o turbilhão corre contra o erro na contagem do tempo, ignorando que de pouco nos serve. As histórias de amor terminarão todas, sem excepção, demasiado cedo ou demasiado tarde.
Tenho para mim que, apesar de paradoxal, é nas que terminam demasiado cedo que seria possível o foram-felizes-para-sempre.

A ameixa mais doce

Pelas nove da manhã deitei-me à sombra da ameixeira, a ver o azul do céu entre os ramos carregados de ameixas e folhas brilhantes. Passou pouco tempo até que a minha atenção se centrasse na corrida frenética das formigas tronco acima, tronco abaixo, e me lembrasse das histórias que tenho com elas, embora apenas uma se conte com graça na família. Resume-se a um carreiro delas comido por mim aos quatro anos, caçadas uma após outra por um dedito molhado depois de, ao almoço, e para evitar que não terminasse a refeição por ter visto uma formiga a rondar-me o prato, o pai me ter dito "até a podias ter comido, fazem os olhos bonitos". Não recomendo o pitéu, são duma acidez tão inesquecível quanto inenarrável.
Por um dia larguei a minha formiguice e fui cigarra. Vi céu o dia inteiro, entre sol, água, espreguiçadeira e risos. Comi a ameixa mais doce, deitei-me à sombra e adormeci ouvindo isto



Out of the tree of life I just picked me a plum
You came along and everything started to hum
Still it's a real good bet the best is yet to come

The best is yet to come and babe, won't it be fine?
You think you've seen the sun but you ain't seen it shine
(...)

Não a escutei até ao fim mas sei que sim, que o melhor ainda está para vir.

Podias acreditar nisto comigo...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A quem me faz feliz

Nos últimos tempos parece-me que o que mais tenho feito é despedir-me de pessoas de quem gosto. No momento é como se tirassem bocadinhos de dentro de mim, sinto-me esvaziar. Mas depois sereno, já não me desespero. Percebi há já algum tempo, diria anos, que toda a presença é precária, que toda a vida é precária, e que a perda, a mudança ou a transformação têm muito mais chance de ocorrer do que a permanência. Aprendi também a aceitar os outros tal como são e a não esperar deles mais do que lhes é possível dar, desde que assimilei a minha própria inconstância, o turbilhão que são tantas vezes os meus sentimentos e as minhas limitações. Vivo melhor. As lágrimas lavam e o riso dá brilho, aceito-os tão graciosamente quanto vou sendo capaz. Metade do mundo perfeito está encontrado e a outra metade seguir-se-á. O Amor em Paz.



Achei durante muito tempo que não encontraria esse Amor em Paz (que costumava ouvir na voz da Paula Morelenbaum) mas também isso mudou quando percebi que procurava de forma errada. Ocorre-me a história da mulher preguiçosa a quem uma fada promete enviar dez anõezinhos invisíveis para ajudá-la nas tarefas domésticas e que só no final do dia, com a casa toda arrumada sem ter posto a vista em cima dos anões mas confiando que eles lá andavam, percebe que a ajuda esteve sempre na ponta dos próprios braços. Enfio a carapuça, é a mim mesma que devo encontrar antes de mais e assim vou aprendendo a consertar o meu coração.



Gosto deste moço, de quem ouvi numa canção

Sigo o meu caminho
Mas não vou sozinho
Trago esse meu coração que diz
"Amo as estrelas, amo certos olhos
amo a quem me faz feliz"

E porque há quem me faça feliz e esteja de partida, hoje foi dia de festa. Não choro nas despedidas, é desperdício. Ao invés, haja alegria, esteja cada um no seu melhor. Não haverá falta na ausência.

Ausência

Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

O N voltará e haverá festa no regresso. Porque ele diz, a nosso respeito, eles são malucos mas a família não sabe e eu, moça mais comedida, digo que nada disso, que apenas quando um diz mata já o outro está a esfolar. Mais ou menos como no video aí abaixo. Ah!... e esses copitos da Duvel, flutuam melhor que as flutes. E há um armário cheio de copos alinhados para a prova de natação. Aqueles 24, todos diferentes, da peregrinação às brasseries belges...



Já nós... nunca te tive, não tenho como sentir-te a falta. Explica-me, então, que dor é esta que sinto quando me rio?

Tentações


Levantei-me cedo e cedo fiz aquilo que temia me levasse o dia todo. Depois, o cheiro do café acabado de fazer a encher o ar da cozinha, Amy no ipod mais o seu Frank e o ar fresco da manhã subindo do rio.
Ontem carreguei tudo para casa, faculdade para trás das costas por um dia e uma lista de tarefas razoavelmente ambiciosa a cumprir. Como prémio pelo bom começo do dia espreito as gordas do Público online e demoro-me no P2, levada pela curiosidade que a palavra tentação sempre desperta em mim. Fui ver a que não resistem os nossos chefs, o que lhes desperta a gula, e descubro que o chocolate, as bifanas e o queijo estão no topo do que os tira do sério.
Para mim mandava mandava vir queijo, tinto e um par de olhos, deliciosamente combinados. Ou só os dois últimos, ou só mesmo os últimos, que cumprissem a difícil tarefa de se encontrarem a valer com os que estão aí acima e me colocassem no sério.