sábado, 13 de novembro de 2010

O coração é como o metro de Tóquio


Pensei que fosse elementar, que toda a gente soubesse que o coração subverte a aritmética. Pensei que fosse claro que, ao contrário das contas da primária, no amor quando se dá se fica com mais e não com menos. Achava que toda a gente sabia que no amor quando se reparte o resultado é o da multiplicação por números grandes - aumenta. Mas enganei-me.
Fazendo um desenho, o coração é mais parecido com o metro de Tóquio do que com um smart for two. No coração cabe sempre mais alguém. A única coisa que é preciso é, para quem já lá está dentro, saber conviver com quem entra.

Ou então sair na paragem seguinte.

Al(l)one


Não me lembro de coisa que me tenha custado mais a aprender do que a estar só. A mim, que até gosto de silêncio. Tanto. Quando se gosta de silêncio, cada som é escutado e tem significado, é como se tivesse corpo e ocupasse espaço. Por isso, o silêncio de quem se queria ouvir é como se fosse anti-matéria, um buraco negro, e o que se tem cá dentro é vácuo. Mas passa. Aos poucos reaprende-se a respirar profundamente, alargam-se os pulmões, e o ar que entra, sai, circula e nos oxigena é o nosso. Aprendemos a ser a nossa melhor companhia. O silêncio volta a ser bem vindo, volta-se a ser inteiro. Alone mas all one. É tudo uma questão de tempo e de vontade.

Mas muito mais da segunda que do primeiro.

domingo, 7 de novembro de 2010

All ways

I love you now.
Amar aos bocados é o que está na nossa natureza. Amar o fácil, o simples e o que nos agrada. Amar quem nos ama e nos mima, quem nos mostra que tem de nós um conceito e uma imagem que ultrapassam o conceito e a imagem que temos de nós mesmos. É nesse sentido, dando esse significado à palavra amar, que todos nós amamos muito, temos amado e amaremos. Muito. Toda a vida. E é fácil, tão fácil.
I love you always.
Difícil, muito mais difícil, é amar sempre. Amar também quando é tempo de dar muito mais do que se recebe, de ser paciente e querer o bem. Amar também na falta e na fraqueza do outro, perceber-lhe as diferentes formas e aceitá-las como um todo. Ser capaz de, mais do que dizer, sentir verdadeiramente que se ama. Sempre. Independentemente da facilidade, não condicionalmente à forma, mas em todas as formas. I love you all ways.

Mesmo nos dias de alma rasa, aqueles em que temos o coração embalado a vácuo como um naco de picanha sul americana. If you know what I mean...

sábado, 6 de novembro de 2010

Se são? Não.

Não, não são. A maioria das coisas não são como nós queremos. Porque pura e simplesmente queremos demais, queremos naquele momento e naquela medida. E não há quem aguente ou, mesmo que aguentasse, não há quem adivinhe. A solução passa por querer menos. Simplesmente.

Acredito que aí começam as surpresas boas. Genuinamente. E em vez de amuos nascem sorrisos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Maçãs, simplesmente

Ontem à noite, quando já tinha perdido a noção da hora, quando na rua já se tinham calado todas as vozes, descasquei e cortei as maçãs, das amarelas e das vermelhas, e pu-las a dormir cobertas de açúcar e um pau de canela para mimo. De manhã, bem cedo, ainda o sol não se tinha levantado, lume lento. Ali ficaram, fervendo docemente. Mais tarde, foi acordar com o perfume doce espalhado pela casa e a delícia que é ter compota morna ao pequeno-almoço.
A vida sem estas coisas não me sabe ao mesmo. Faz-me falta que me saiam das mãos coisas que abrem sorrisos.

Acredito que a doçura existe dentro de todos nós mas a maravilha só se dá quando ela transborda.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

C'est comme il faut...


... mon Petit Gateau!

Um interior doce e derretido qb, numa estrutura sólida mas não rígida.

Pecado mortal. Um deles.

Respiro. Fundo. Aprendi que a inspiração profunda e lenta, seguida da expiração ainda mais profunda e mais lenta liberta. Vão-se os humores maus.
Mentiria se dissesse que nada me mói. Mói. Mói e dói. Mas passa. E passa cada vez mais depressa porque, afinal, é a mim que compete decidir o que me ocupa e ao que me dedico. E aqui, eu escolho o que realmente importa, escolho aquilo a que chamo bem, e que é o que me acrescenta e àqueles que amo. Em felicidade.
Veio isto a propósito de uma chazada azeda e um tanto raivosa que recebi de quem quis ser tido como especial ditando regras, decidindo o que quer receber, julgando que a sua simples presença já seria motivo de gáudio e gratidão eterna aos céus. Alguém que não percebe, ainda que dito de forma clara, tão clara como um Não pode ser, que na vida das pessoas não temos o lugar que queremos mas aquele que conquistamos. Alguém que não percebe que o amor não se impõe. Pior, alguém que não entende que ao amor não se acena com promessas de vida confortável e desafogada. O amor acontece. Ou não. Apenas. E se não acontece, paciência. Aí, ou se conserva a amizade ou, se não se conseguir, porque não se ser querido por quem queremos custa muito (been there, got the t-shirt to prove it), afastamo-nos. E voltamos à vida, que é tão breve e tão preciosa para ser desperdiçada.
O que não concebo nem aceito é que quem sempre foi clara, quem sempre disse Não esperes isso de mim, passe, no momento em que por fim se faz luz, de bestial a besta. Por isso, amiguinho, faz agora comigo, sim? Breathe in, slowly, deeply... E agora... breathe out, even more slowly...
É que a raiva é constritora e mata lentamente quem não sabe lidar com ela, tá?

Para além de ser pecado. Mortal. Mesmo. Está provado.

domingo, 24 de outubro de 2010

pre

Fiz arroz de passas.
Com canela.
Deliciosamente surpreendente.

Veio isto a propósito do preconceito, de pensarmos que as coisas estão moldadas para se encaixarem numas e não noutras. Que a canela encaixa no arroz, se for arroz doce. Não é verdade.
Preconceito é o conceito formado prematuramente, antes de maturado. A evitar sob pena de perdermos cores e sabores novos. No prato e na vida.

Só sei assim


Não sei se sei de outro amor senão daquele que me sai das mãos e dos gestos. Mesmo ao do olhar preciso de fazer algo, dar-lhe corpo.
Fiz-te doce de peras e maçãs.

Queria dar-te um pedaço de Outono...

Se ainda aí estiveres


Não sei bem que fiz de ti, digo-me agora. Lembro-me apenas que deixei de me escrever escrevendo-te porque se tornou doloroso. Decidi que deixarias de existir, que não me fazia bem, não tanto quanto achava, querer-te na minha vida. Deixei-te, como deixo tudo. Assim, de repente, numa volta sobre os calcanhares. 180 graus. Durante meses desviei o olhar da barra dos favoritos, neguei-me a tentação de rever-te aqui, em quem fui durante mais de um ano. E assim veio a paz. E a seguir a inquietação.
Hoje arrumei tudo o que é meu, e andava espalhado, e voltei para ti. Agora estamos só nós os dois. É de novo tempo de te ouvir e de te escrever, meu coração.

...se ainda aí estiveres, se não me tiveres esquecido.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Will I still...

Vou à janela quando sais.
Faço-o desde sempre, porque sim, porque há uma força qualquer que me impele para lá. Fico encostada a ver-te afastares-te, a diminuires de tamanho, até deixar de te ver quando dobras a esquina. Enquanto o frio da pedra não me desperta deixo-me ficar encostada, com os olhos postos no ponto onde desapareceste, num misto de saudade e de sensação de paz. Ou se calhar apenas de alívio, com o sentimento de ter feito tudo bem até ao fim. Como se já não fizesse mal que não voltasses. Ou que voltasses e já não me encontrasses.

Não sei, não quero saber, coisa alguma sobre o futuro.

terça-feira, 2 de março de 2010

São os trapos


Escorreu-me um não sabes como às vezes me custa quando me disseste, divertido, a menina anda sempre arranjada, varia muito, tem coisinhas novas muita vez. E, como se não bastasse, acrescentaste que quando gostas, gostas. Que o sobretudo que trazes já é quente demais para estes dias, mas que uma vez resgatado ao roupeiro já avançado o inverno, te tinhas apercebido do quanto gostas dele e que não te apetece deixá-lo. Em oposição ao meu ombro nu, muito branco, disseste, numa blusa antecipando a primavera. Sem mangas. Continuaste, achando graça à forma sistemática como não repito o calçado. Se soubesses como às vezes me custa, disse-te desta vez num sorriso aberto. Para que pensasses que te mentia. Com o olhar pousado na cúpula azul da mesquita. Infiel.
Só muito mais tarde te disse que, ainda que não pareça, também eu desejo o conforto tranquilo de não ter de procurar ou de escolher mais. Que quero saber com o que contar, sem a decepção de descobrir, pouco depois, que afinal me assenta mal. Que prefiro macieza do tecido puído pela convivência com a pele à novidade. Que não está tempo para blusas sem mangas mas que me alegram à falta do agasalho que se molda aos meus ombros e não me aperta o cotovelo quando dobro o braço. Aquele com que se vive, convive e revive. Que se conserta, remenda e recupera com dedicação e amor. Por vezes dou comigo a querer isso mesmo, a desejar encontrar o que me assentará bem, que nem uma luva, e que não vou querer trocar nunca mais. Mesmo que esteja a perder o pelo, mesmo deformada e esfarrapada, barriguda e fora de prazo, acresentaste. Sim, disse-te. Isso mesmo, fiz-me entender. Afinal percebes de trapos, atirei-te no meio duma careta.

Wishful thinking, wishful thinking, wishful thinking, wishful thinking, wishful thinking, wishful thinking, wishful thinking, wishful thinking, wishful thinking, wishful thinking, wishful thinking. Apenas.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Forró suits you better, crê-me


Fico assim, entre o cair pra trás de espanto e o escangalhada de riso quando vejo quem é egoísta e centrado no botãozinho da barriga, quem não cuida e só tem tempo para se lembrar que o outro existe quando está aborrecidinho do resto todo, vir espantar-se e indignar-se soltando Então e eu?'s e Não me disseste nada.
Haja paciência, enxergue-se!

Agora expliquem-me como é que alguém assim pode querer aprender tango. Logo tango! If only it didn't take two...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

E os dois serão um só

O que era para ser apenas uma resposta transforma-se num post, só porque de repente esta coisa não me deixa comentar. Eu não consigo comentar no meu próprio blogue. Ok, muda-se o formato, mantém-se o conteúdo, ou seja, a mensagem. E é o que importa, afinal. Veio a propósito do post anterior e do comentário a ele. Foi o seguinte:

Ao fim do dia, se por algum motivo nos afastámos ou perdemos, deve bastar-nos voltar para nós próprios. E permitir-nos sorrir-nos ao abrir a porta e com sorrisos, e risos também, "acender as luzes no horizonte à medida que a noite cai".

Ao que quero responder dizendo

Na mouche, mana. Era essa mesma a mensagem. É preciso saber estar sozinho para se poder ser boa companhia para outrem. Voltar para alguém por não se saber estar só ou, pior, para se fugir da própria companhia, é uma maldade. Para o próprio e para o outro. Sobretudo se este outro se julgar amado quando não é, afinal, mais do que (um mal) necessário.

Ia rematar por aqui, numa repetição do exercício de tudo-ou-nada, um tanto radical, que tantas vezes faço, quando achei que devia ser mais realista. Senti-me na obrigação de dizer o que falta da verdade, que aqueles dois casos acima não são o que mais acontece. Na vida real, o mais comum, mesmo, é ser nem uma coisa nem outra. Ou seja, nem se volta porque se quer para quem se quer e que quer o mesmo, nem se volta para um mal menor, que nem por isso se quer, e que anda iludido julgando-se querido. Não.

O mais comum, mesmo, é termos dois actores, em sincronia, bem (in)conscientes, actuando na mesma farsa.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Foi o riso também

Não me lembro quando foi que por fim te vi, nem sei bem porquê só ao fim de tanto tempo...
Mas

Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz lá dentro,
apetecia entrar nele, tirar a roupa, ficar nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade

O sorriso, o riso também.
Que fazem acender as luzes no horizonte à medida que a noite cai.

Se é preciso voltar para alguém ao fim do dia? Não.