quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O charme indiscreto da freguesia


Não há empregado de loja, de café, padeiro, peixeiro ou jornaleiro que tenha um charme que chegue, sequer, aos calcanhares do charme dos homens do talho.
Como não há cliente que se derreta como derrete a cliente do açougue suburbano. Não é de hoje que me entretenho a observar estas cenas enquanto espero pela minha vez para ser atendida. Como os tempos de espera são em geral longos, depois de ter escolhido o que quero levar, coloco-me em escuta e deleito-me com as conversas. Elas são simpáticas na esperança de saírem de lá bem aviadas, com a melhor carne. Acho que lhes sai naturalmente, é o instinto maternal, a biologia a puxá-las à protecção do clã, que querem bem nutrido. E eles, que a isto sentem o cheiro, atendem-nas com desvelo exagerado. E chamam-lhes menina, coisa que não são há dezenas de anos e de quilos, enquanto cortam com voz macia bifinhos que na frigideira se tornarão mais rijos que sola. Estava embalada nisto quando chamaram o 8. Em troca da senha recebi um sorriso e, também, um Diga menina. Apontei para uma peça de carne no balcão e disse Corte para assar, por favor.
Deve ter-me tomado por inábil na cozinha e devolveu-me um simpático A menina deve querer fatias que saiam direitinhas, leve antes desta peça, ao que retorqui Quero daquela mesmo, é mais tenra e menos seca. E segui pedindo bifes da mesma peça, pequenos, cortados grossos. Foi aí que sorriu a la Clark Gable e me lançou com ar malandreco Estou a ver que a menina gosta de carne... percebe disto, percebe...
Deu-me vontade de rir e pensei cá comigo que dali, do que gosto mesmo é das facas bem afiadas. Lembrei-me do meu olhar curioso, há muitos anos atrás, frente à montra da Policarpo, na Baixa, no tempo em que não distinguia uma faca de desossar duma vulgar faca de talho mas já me pareciam todas bem mais interessantes que as facas toscas lá de casa. Acho que vou até lá, um destes dias, para ofertar-me um conjuntito de tais facas, que cortam que nem um bisturi e farão com que operações como a que fiz no natal (em que desossei um peru para rechear), não só me saiam na perfeição, como permitirão que o charme do homem do talho não se desperdice avec moi e vá todo, direitinho, para o resto das meninas da freguesia.

Cá em casa me entreterei, depois, a cortar os bifes como eu gosto.

3 comentários:

Alexandra Brandão disse...

Excelente forma de encerrar o ano no blogue: com o humor de estilete que te caracteriza. Imaginas as gargalhadas altas que se ouviram aqui? Só tu.

Mutante disse...

Imagino, pois!
As fantásticas gargalhadas da nossa família. :o)

Alexandra Brandão disse...

:-X ups! :-D