sexta-feira, 9 de outubro de 2009

DIY sempre? Não.

O gosto pelo porquê, pelo como se faz e pelo como funciona andam comigo desde que me conheço e, dos presentes que o meu pai me deu, recordo que recebi com especial entusiasmo um busca-pólos e um alicate para escariar fios.
Por cá, no último mês as avarias têm-se sucedido e foi altura de deitar mão à caixa de ferramentas. No início houve um misto de raiva e impotência. A primeira porque me vi sózinha, porque achei injusto não haver um par de braços logo aqui com os meus e um sorriso cúmplice a dizer-me vamos a isto, somos capazes, e a segunda porque apesar de saber como se faz me falta força. Aquela força de pulso necessária para abrir tampas, desatarrachar e, no final, dar aquele aperto.
As modestas conquistas que me encheram de confiança, para além da questão da máquina da roupa, são:
1- a substituição da canalização que alimenta a misturadora da cozinha - comprei bichas e borrachas, sózinha, tudo certinho à primeira sem precisar de instruções. Instalei tudo mas, claro, tive de pedir ajuda para o aperto final mas ficou tudo fantástico, não cai uma pinga!
2- diagnóstico do problema do carro- estou apeada, é certo, mas quando disse (entusiasmada) na oficina o que achava que passava o técnico só se ria e dizia é isso mesmo, mais umas achegas a chamar as coisas pelos nomes. Apetecia-me ter lá ficado, ver o carro subir no elevador e aprender a desmontar aquela coisa. Continuo apeada.
3- fabriquei uma peça para o pisca traseiro da scooter da miúda mais pequena - os casquilhos das lâmpadas de baioneta têm uma mola e um disco que mantêm a base da lâmpada em contacto com o resto do sistema (sei lá como se chamam estas coisas!). Solução a la McGyver, a mola saíu duma caneta que fazia publicidade à universidade que fica do outro lado da minha e o disco fi-lo a partir da tampa duma garrafa de água. Pelo caminho foi preciso desmontar os plásticos quase todos da scooter e voltar a montar tudo, com algumas falhas no respeito ao first out last in por distracção. Trabalho de equipa de pai e filha, os dois na garagem quase toda a tarde como quando me ensinou quase tudo o que sei sobre electricidade.

Porquê escrever isto, que provavelmente qualquer pessoa também faria? Porque tem a ver com dificuldades internas, barreiras, insegurança e uma necessidade de auto-demonstração de capacidade. Porque detesto chamar por socorro antes de tentar resolver as dificuldades. Mas, sobretudo, porque ontem estiveram, pai e filha, próximos, muito próximos. Porque o amor e os laços que unem mais fortemente os seres humanos são aqueles que se criam quando se empenham conjuntamente para vencer dificuldades. Porque a minha zanga por me sentir só tem pouca razão de ser. E também para voltar aqui daqui a uns tempos, quando estiver zangada e disser que não quero que se cheguem a mim, que sou bem capaz de resolver tudo sozinha, que tenho de ter presente que as dificuldades são oportunidades. Não só de aprender mais alguma coisa mas também de reforçar laços.

Na minha mala de ferramentas falta, entre muitas outras coisas, um conjunto de chaves de bocas.

1 comentário:

Alexandra Brandão disse...

Mana, preconceito ou não, julgo que um pai português comum não ofereceria busca-pólos e alicates para escariar fios a uma filha. Talvez por isso mesmo terá contribuído para que qualquer uma de nós seja bastante diferente das mulheres portuguesas que conhecemos. É muito útil ter à mão as ferramentas adequadas para repor os neurónios que se vão queimando um pouco todos os dias. E o amor entre pais e filhos é a mais importante delas.